Dados levantados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que, em 2023, 27% das mortes maternas no mundo foram em decorrência de hemorragia pós-parto.
A hemorragia pós parto ocorre quando a gestante perde mais de 500 ml de sangue após o parto vaginal ou mais de 1.000 ml após cesariana. Em decorrência do alto nível de perda de sangue, a paciente pode apresentar queda da pressão arterial, taquicardia, tontura e muitas vezes necessita da intervenção.
A maioria dos casos ocorrem em mulheres sem fatores de risco e podem ser tratáveis, fatores que levantam questionamentos sobre sua grande decorrência.
Segundo o ginecologista obstetra e professor da Unicamp (Universidade de Campinas), Rodolfo de Carvalho, o problema do alto índice de hemorragias pós-parto é uma questão de gênero.
Em entrevista para à CNN Brasil durante a 11ª edição do Fórum Latino-Americano de Qualidade e Segurança na Saúde, que ocorre durante os dias 27 e 30 deste mês, Rodolfo explicou que, em países em que o papel da mulher na sociedade é mais igualitário, os índices de hemorragia pós-parto são menores.
“Se a gente tem uma condição, uma doença em que a gente sabe o tratamento e a gente não oferece o tratamento certo, alguma coisa a gente está falhando. E quem pode morrer de hemorragia pós-parto? Mulheres ou pessoas gestantes”, ressalta o ginecologista.
Opção da cesárea
Uma das alternativas que muitas mulheres encontram para não passarem por tal dificuldade é o parto de cesárea, mas o especialista reforça que o método não é a melhor solução, mas sim uma alternativa muitas vezes sugerida em momentos que a gestante se encontra vulnerável
Rodolfo de Carvalho ressaltou que “o convencimento passa porque é muito melhor do ponto de vista fisiológico, do ponto de vista clínico, a mulher passa 8, 12 horas de parto com dor. Muitas vezes, dor que ela não está preparada para poder lidar com isso. É tortura. A cesárea não é a solução. A cesárea foi uma solução intermediária encontrada por alguns grupos para facilitar o processo de nascimento. Mas que traz muita consequência ruim.”
O médico explica que, para que não apenas essas decisões invasivas ocorram, mas para que, principalmente, a hemorragia pós-parto não seja uma possibilidade, a solução é a melhoria do modelo de assistência no parto normal, com um trabalho conjunto e completo com enfermaria obstétrica, médico obstetra, anestesistas, a possibilidade da adesão de analgesia de parto e um preparo maior para assegurar que a gestante tenha conforto e segurança ao invés de dor.
“A hemorragia, muitas vezes, é consequência da falta de assistência adequada. O que precisamos é justamente mudar essa ideia de que a assistência adequada está na cesárea. A assistência adequada precisa estar em todo o momento do processo de gestação, parto e puerpério. Especialmente, precisamos oferecer condições para que as mulheres tenham os seus direitos garantidos”, reforça o ginecologista obstetra.
*Sob supervisão de Thiago Féli

