Um ritmo de guerra terrivelmente familiar voltou para os iranianos — com rodovias bombardeadas e uma moeda em queda livre, publicações ameaçadoras nas redes sociais do presidente Donald Trump e retórica inflamada dos líderes clericais do Irã.
No entanto, quando Behnam, um músico desempregado em Teerã, liga para sua família ou amigos para saber como estão, ele nunca começa falando sobre a guerra. “A primeira pergunta que fazemos uns aos outros é: você já comeu?”
Como todos os iranianos entrevistados para esta reportagem, Behnam, 38, pediu que seu sobrenome não fosse divulgado por medo de represálias do regime iraniano. “Honestamente, chegou a um ponto em que só pensamos em sobreviver”, disse ele.
Ficaram para trás os discursos motivacionais de parentes sobre encontrar um emprego, disse ele, enquanto o desemprego continua a disparar. Muitos iranianos engavetaram planos de reformar prédios ou reconstruir vidas devastadas pela guerra. Planejar o futuro parece um luxo absurdo quando amigos empobrecidos só conseguem comprar arroz em pequenas quantidades e quando os Estados Unidos e o Irã estão trocando ataques a instalações militares, portos e usinas de dessalinização de água pela região.
Por mais de um ano, os iranianos estão presos em um ciclo constante de ataques aéreos, repressão interna à segurança e devastação econômica. Um breve cessar-fogo alcançado no mês passado com os EUA trouxe algum alívio das bombas, embora não da economia em queda. O desmoronamento do acordo nas últimas semanas jogou o país de volta à guerra. Muitos iranianos ficaram com a sensação de que suas vidas estão em suspenso ou não lhes pertencem mais.
“Não tenho mais controle sobre minha vida”, disse Behnam. “Nosso destino está nas mãos daqueles que não pensam nas pessoas comuns.”
Esse ciclo de crise tem atormentado os iranianos desde a guerra de 12 dias entre EUA e Israel que devastou o país em junho do ano passado. Na esteira, o regime persa colocou o país sob um apagão de internet que durou meses, citando preocupações com a segurança nacional. Isso fez a economia já cambaleante entrar em colapso.
Então, uma crise cambial em dezembro desencadeou protestos contra o regime que cresceram e se tornaram um movimento nacional. Eles foram esmagados em janeiro em uma repressão mais feroz do que qualquer outra que o Irã havia experimentado em décadas, deixando milhares de mortos e o país amargamente dividido.
Semanas depois, Trump e o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, iniciaram sua guerra contra o Irã, descrevendo-a como uma chance única em uma geração de derrubar os governantes autoritários do país. Aviões de guerra americanos e israelenses bombardearam o Irã, destruindo infraestrutura e matando o líder supremo e milhares de civis. Mas o regime teocrático do país permaneceu intacto, fortalecido por sua sobrevivência.
Asal, uma comerciante de 20 anos em uma cidade perto de Teerã, estava entre os milhares que participaram dos protestos em janeiro. Caindo em lágrimas ao descrever a prisão e tortura que disse ter sofrido junto com seus amigos, Asal disse que um dia esperou que a intervenção americano-israelense ajudasse a derrubar o regime.
“Trump nos disse que queria nos salvar, mas isso não era verdade”, disse ela. “O que quer que aconteça no futuro não importa mais para mim.”
Segundo alguns iranianos, o desânimo aumentou ao ver quantas vezes seus familiares tentaram superar as dificuldades econômicas apenas para terem suas pequenas conquistas destruídas pela crise seguinte.
Farzad, um web designer em Teerã, disse que, na recessão após a guerra de 12 dias, uma amiga da família começou a vender picles e geleias caseiras pelo Instagram para complementar sua aposentadoria, que não era mais suficiente. Seu negócio antes próspero desmoronou durante o apagão de internet, que o regime impôs durante toda a repressão de janeiro e nos primeiros meses da guerra.
Alguns iranianos disseram em entrevistas que os preços haviam subido tanto que estavam abrindo mão de cuidados médicos, ou comprando vitaminas para substituir frutas e vegetais em sua dieta porque eram mais baratas.
“Deixe as estatísticas de lado”, disse Farzad. Quando se trata de medir a crise econômica, ele disse, “nós a conhecemos com nossos próprios corpos, com nossa experiência vivida”.
Mesmo quando os bombardeios diminuíram nesta primavera, os iranianos enfrentaram novas indignidades. Seu governo continuou a perseguir sua repressão à oposição, incluindo uma onda de execuções de manifestantes de janeiro e confiscos de propriedades de dissidentes. No mês passado, ataques cibernéticos derrubaram três dos principais bancos do Irã, segundo as autoridades. Milhões de iranianos perderam subitamente o acesso ao pouco dinheiro que tinham.
Quando o caos bancário foi resolvido, o país estava de volta à guerra.
Apoiadores do regime iraniano argumentam que o país não tem escolha senão continuar lutando.
“Tudo tem um custo”, disse Hossein, que administra um negócio online na cidade portuária de Bandar Abbas, que sofreu pesados bombardeios americanos na última semana. “Enfrentar os EUA e preservar nossa independência é muito mais valioso do que se tornar mais um país na região que simplesmente diz sim a tudo o que os EUA querem.”
Grande parte dos novos combates tem sido no sul do Irã. Farideh, 51, ficou horrorizada com os bombardeios americanos que destruíram ferrovias e derrubaram pontes em sua região, deixando alguns moradores isolados por dias.
Na província sulista de Hormozgan, ataques aéreos derrubaram redes de energia e uma usina de dessalinização de água, segundo Hamid Saed Panah, chefe da empresa local de distribuição de eletricidade, e Ahmad Nafisi, vice-governador da província. Os Estados Unidos não comentaram essas alegações.
Alguns moradores do sul disseram que ficaram sem água encanada e sofrendo cortes de energia de várias horas, enquanto tinham que suportar temperaturas que frequentemente ultrapassam 49ºC.
“Tem sido uma experiência extremamente amarga e estressante, cheia de desesperança sobre o futuro”, disse Farideh. Ela lutava para imaginar o que seria da educação de seus filhos e quais perspectivas de carreira lhes restariam. “Infelizmente, nós, o povo, estamos pagando o preço pelos erros e teimosia dos governos.”

