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Por dentro do comitê sigiloso da Fifa que suspendeu o cartão vermelho dos EUA


O comitê disciplinar da Fifa, composto por 18 pessoas, tem um elenco diversificado, incluindo um nobre tonganês, um coronel togolês e o chefe de um conglomerado de alimentos e iluminação sediado em Trinidad e Tobago.

No entanto, as últimas 110 decisões publicadas pelo comitê foram tomadas por apenas uma pessoa, já que o presidente —o ex-parlamentar emiradense Mohammad Al Kamali— tem permissão para fazer julgamentos sozinho ou delegar esse poder a outra pessoa. Nem todas as decisões são tornadas públicas.

O funcionamento opaco do órgão foi colocado sob os holofotes internacionais devido à controversa suspensão de uma punição de um jogo aplicada ao artilheiro da seleção dos EUA, Folarin Balogun, após pressão do presidente Donald Trump. A medida permitiu que ele jogasse contra a Bélgica nas fases eliminatórias da Copa do Mundo, apesar de ter recebido cartão vermelho na partida anterior.

A decisão gerou indignação em todo o mundo do futebol e reclamações de especialistas jurídicos de que a Fifa aplicou incorretamente suas próprias regras, com críticos afirmando que os diversos comitês e regulamentos da organização apenas criam uma aparência de boa governança.

“A Fifa se esconde atrás da suposta independência de seu comitê disciplinar”, disse Miguel Maduro, ex-presidente do comitê de governança da Fifa, que foi contratado pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino, em 2016, mas foi afastado em menos de um ano no cargo.

O órgão é composto por uma mistura de especialistas jurídicos, advogados atuantes e dirigentes de federações de futebol. É presidido por Al Kamali, advogado, enquanto o vice-presidente Jorge Palacio é um ex-juiz colombiano. Outros membros incluem Lord Ve’ehala, presidente da federação de futebol de Tonga, e o presidente da associação de futebol togolesa, Kossi Guy Akpovy, anteriormente coronel da Gendarmaria Nacional.

Os candidatos são indicados pelas confederações regionais de futebol e eleitos pelo Congresso da Fifa, que conta com 211 membros. O presidente recebe US$ 160 mil (R$ 820 mil) por ano. Os demais membros ganham US$ 7.500 (R$ 38,4 mil) e não podem ocupar outros cargos dentro da Fifa. Os custos totais do comitê no ano passado, incluindo diárias e viagens, somaram pouco mais de US$ 1,2 milhão (R$ 6,15 milhões).

Embora o comitê completo tenha 18 membros, um grupo menor é responsável por tomar decisões durante os torneios, segundo pessoas que estiveram envolvidas em casos disciplinares. Normalmente não são realizadas audiências sobre disputas, que são tratadas por meio de cartas enviadas ao portal jurídico online da Fifa.

Especialistas jurídicos afirmaram que o comitê não tem poder para anular punições automáticas —seu papel é decidir se esses casos justificam sanções adicionais.

No final do ano passado, o comitê também interveio quando a lenda portuguesa Cristiano Ronaldo recebeu uma suspensão automática de três jogos após ser expulso em uma partida das eliminatórias da Copa do Mundo.

O comitê suspendeu a punição depois que Ronaldo havia perdido apenas uma partida, liberando-o para jogar na Copa do Mundo. Essa decisão veio uma semana depois de Ronaldo, que joga no Campeonato Saudita, ter visitado a Casa Branca em uma delegação liderada pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Recursos são extremamente raros. Das quase 3.500 decisões que o comitê tomou na temporada 2024/25 —menos de 300 das quais foram sobre questões relacionadas a partidas—, apenas 31 foram contestadas, com algumas posteriormente retiradas. Um total de 19 chegou ao comitê de apelações da Fifa, 13 foram rejeitadas e quatro consideradas inadmissíveis. Uma foi parcialmente acolhida e uma foi totalmente acolhida.

A Fifa não respondeu aos pedidos de comentário sobre o funcionamento do comitê ou sobre como e por que a decisão sobre Balogun foi tomada.

Em resposta às críticas, o comitê divulgou uma declaração atribuída ao seu presidente, afirmando que Balogun foi considerado culpado de duas infrações: o próprio cartão vermelho e a comemoração em campo ao final do jogo após ter sido expulso. Foi imposta uma suspensão de um jogo e uma multa de US$ 40 mil (R$ 205 mil), mas o comitê disse que estava suspendendo a punição por um ano.

Não foi apresentada justificativa para a suspensão, apenas que “foi decidida considerando todas as circunstâncias específicas que cercam o incidente e as evidências disponíveis”. O comitê disse que não anulou o cartão vermelho, mas acrescentou que “revisar as consequências legais de cartões vermelhos no futebol não é novidade”.

“Por exemplo, na maioria das ligas de primeira divisão pertencentes a associações filiadas à Uefa, a anulação de cartões vermelhos é uma medida disciplinar comum”, afirmou o comunicado.

No entanto, tais decisões nas associações membros são realizadas por painéis de árbitros com expertise relevante, não por comitês de advogados. O regulamento da Fifa não possui nenhuma disposição que permita a anulação de um cartão vermelho, exceto em caso de erro de identificação.

Paolo Lombardi, ex-chefe do departamento disciplinar da Fifa, disse que se a entidade quisesse o poder de alterar punições automáticas, então precisaria mudar suas regras —algo que exigiria uma consulta mais ampla em todo o futebol.

“Se não, se foi um caso isolado, então há uma grande questão reputacional que eles terão que enfrentar daqui para frente”, disse ele.

A Uefa classificou a medida como “incompreensível e injustificável”. Embora a Bélgica tenha vencido a partida por 4 a 1, sua federação de futebol disse que está “defendendo uma revisão” dos regulamentos da Fifa. Trump confirmou que ligou para Infantino e pediu que ele “revisasse” a decisão.

Infantino então disse em um comunicado que os órgãos judiciais da Fifa são “independentes” e “decidem os casos com base nos regulamentos aplicáveis e nos fatos específicos apresentados a eles”. “Sua independência é essencial para a credibilidade e integridade do futebol, e isso deve sempre ser respeitado”, afirmou.

A Fifa não publicou a decisão sobre Balogun, nem é obrigada a compartilhá-la com ninguém além da federação de futebol dos EUA. Na esteira da decisão, Inglaterra e França apresentaram protestos contra cartões mostrados a seus jogadores, sem sucesso.

O FT tentou contatar Al Kamali através da Fifa e pelas redes sociais, mas não obteve resposta.



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