Estudante de engenharia de pesca, Maria Raupp, 20, se incomoda com os memes que circulam nas redes sociais sobre o curso. As piadas costumam ironizar a escolha pela graduação como “última opção” ou motivo de deboche após a aprovação. Ao ouvir esse tipo de comentário, ela tenta explicar a área e desfazer estereótipos. Para a aluna, a falta de visibilidade ajuda a alimentar esse tipo de reação.
Essa postura educativa vem da própria experiência da estudante. Antes de ingressar na área, ela acreditava que a profissão se limitava à prática de pescar. Chegou a cogitar psicologia e pedagogia, por ter uma “formação mais em humanas“.
A mudança ocorreu quando o colégio onde estudou divulgou, nas redes sociais, vagas remanescentes da graduação na Unesp. “Eu não conhecia o curso nem a universidade. Com a nota do Enem, pesquisei, me interessei e me inscrevi”, afirma. Pesou na decisão o caráter multidisciplinar da formação, que reúne conteúdos de exatas, biológicas e questões ambientais.
Diferentemente da ideia mais comum sobre engenharias, centradas em exatas, há cursos que integram outros campos do conhecimento. Essas graduações combinam matemática, física e química com biologia e ciências sociais.
A engenharia de pesca é uma delas. O professor da Unesp Eduardo Sanches diz que a graduação vai além do estudo de “peixes” e articula conhecimentos de engenharia com fundamentos da biologia.
A rotina desse campo é mais dinâmica. Em pesca, segundo Sanches, quase toda semana há atividades de campo ou em laboratório.
Os alunos aprendem navegação e participam de saídas em embarcações. Também visitam indústrias para acompanhar o processamento do pescado, da chegada à distribuição.
As aulas incluem coletas em praias e manguezais, onde os estudantes entram no ambiente para analisar recursos pesqueiros e entender o papel dos ecossistemas. Na área de aquicultura, participam do manejo de espécies, com reprodução assistida e outros procedimentos técnicos.
Sobre as piadas em relação ao curso, Sanches afirma que elas decorrem da visão da pesca como hobby, e não como atividade econômica. Segundo ele, há alta demanda por profissionais qualificados, superior ao número de formados.
Graças à graduação, Maria saiu de Registro, no interior de São Paulo, para Portugal, onde faz estágio de pesquisa. Ela estuda ecotoxicologia aquática, área que analisa o impacto de substâncias tóxicas nos ecossistemas. Pretende seguir carreira acadêmica.
O engenheiro de pesca também atua em temas do cotidiano da população. A formação ajuda a explicar, por exemplo, o gosto de barro em peixes de água doce, associado a compostos produzidos por algas em ambientes de criação. Também esclarece a coloração do salmão, que depende da adição de astaxantina na ração; sem o pigmento, a carne é clara.
Há ainda pesquisas para melhorar o consumo de espécies nativas. Estudos buscam identificar genes ligados aos espinhos em formato de “Y”, comuns em alguns peixes, com o objetivo de reduzir o problema.
A engenharia agronômica é outra graduação dessa área ligada diretamente à produção de alimentos. O curso combina base em exatas com disciplinas de biologia, solo, clima e gestão, formando profissionais aptos a lidar com sistemas produtivos complexos.
A representante do Crea-SP e conselheira federal suplente no Confea, Andrea Sanches, afirma que o maior desafio é acompanhar a velocidade das mudanças no agronegócio. Segundo ela, novas tecnologias surgem em ritmo acelerado, enquanto a formação exige tempo para consolidar fundamentos. “O objetivo é formar um profissional com base sólida e raciocínio lógico, capaz de se atualizar ao longo da carreira”, diz.
Nos últimos anos, a área passou a incorporar de forma mais intensa temas como sustentabilidade e energias renováveis. A lógica atual, afirma Sanches, é produzir mais com menos, equilibrando produtividade com preservação ambiental e responsabilidade social.
Além do campo, o engenheiro agrônomo também atua na análise de dados e na gestão de riscos, o que aumenta as possibilidades de trabalho. Assim como ocorre com engenharias mais associadas às exatas, profissionais com essa formação também migram para o mercado financeiro. Segundo Sanches, o contato constante com variáveis como clima e produtividade desenvolve uma base analítica valorizada por esse setor.
Outra área com esse perfil multidisciplinar é a engenharia ambiental. O pró-reitor adjunto de graduação da UFMG, Pedro Pereira, afirma que o curso dialoga com conteúdos da engenharia civil, mas com foco em soluções para problemas ambientais.
A formação, normalmente, inclui também ciência de dados e geoprocessamento. O aluno aprende a diagnosticar o meio físico e biótico, atuar no controle de poluição do solo, do ar e da água, gerenciar resíduos e efluentes e trabalhar na preservação e restauração de ecossistemas.
Frequentemente confundida com a ambiental, a engenharia florestal também integra as ciências biológicas. A área equilibra exploração produtiva e conservação.
O curso cuida do manejo e produção de florestas, melhoramento genético e produção de mudas. Inclui ainda tecnologia de produtos, como madeira, celulose, papel e biomassa. O profissional atua na restauração de áreas degradadas e na conservação da fauna.
Também trabalha na proteção contra incêndios e doenças e na arborização urbana. A formação inclui análise de políticas e legislação ambiental, voltadas à sustentabilidade do setor florestal.
ENGENHARIA DE PESCA/AQUICULTURA
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 38
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O que o aluno vai aprender: A rotina do estudante envolve o aprendizado teórico e prático, como visitas a indústrias de beneficiamento e saídas de campo para coletas em manguezais e praias. Além disso, o aluno domina técnicas como, por exemplo, reprodução artificial de peixes (como injeção de hormônios e coleta de gametas) e utiliza laboratórios para estudar ecologia e qualidade da água
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O que a área faz: Foca o manejo sustentável de recursos pesqueiros oceânicos e continentais e na aquicultura de diversos organismos (peixes, camarões, ostras, moluscos e algas). O profissional trabalha para garantir a segurança alimentar através da tecnologia do pescado, resolvendo questões como o processamento industrial e o controle de qualidade.
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Profissões depois de se formar: Os formados podem atuar em empresas privadas de produção, indústrias de beneficiamento, ou criar as próprias startups em incubadoras universitárias. Existem oportunidades em consultoria ambiental, ONGs e fiscalização de embarcações.
ENGENHARIA AGRONÔMICA (E SEMELHANTES)
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 72
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O que o aluno vai aprender: O currículo envolve o estudo de manejo do solo, agrometeorologia, fitotecnia (pragas e doenças), defensivos agrícolas, plantas daninhas, ciência do solo e biogás. Além da parte técnica tradicional, as universidades agora focam em gestão de dados e planejamento macro, capacitando o aluno a converter o volume massivo de informações coletadas no campo (via celulares e monitoramento) em decisões assertivas.
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O que a área faz: Supervisionar e instalar qualquer projeto rural, abrangendo desde a produção de grãos, frutíferas e hortaliças até pastagens, gramados e paisagismo. A área utiliza inovações como energias renováveis e bioinsumos para equilibrar a variável econômica com as demandas sociais e ambientais.
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Profissões depois de se formar: O mercado de trabalho é considerado “aquecido” e oferece rápida recolocação, com destaque para a atuação em propriedades rurais, empresas de insumos, fábricas de equipamentos e indústrias do setor. O profissional não atua apenas “dentro da porteira”, mas trabalha no encaminhamento da produção para as fases de transformação e circulação nos mercados interno e externo.
ENGENHARIA AMBIENTAL
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 57
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O que o aluno vai aprender: Ciências exatas (computação e dados) e biológicas (preservação de ecossistemas). Aprende a diagnosticar impactos bióticos e antrópicos.
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O que a área faz: Soluciona impactos ambientais e restaura áreas degradadas. O foco atual está na economia circular e estratégias de resiliência climática.
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Profissões depois de se formar: Analista ambiental em órgãos públicos (Ibama, secretarias) e consultor de sustentabilidade em indústrias.
ENGENHARIA FLORESTAL
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 58
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O que o aluno vai aprender: Implantação e colheita de plantações florestais; melhoramento genético; tecnologia de celulose e papel; e manejo de bacias hidrográficas.
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O que a área faz: Trabalha na restauração de florestas nativas, conservação da fauna, proteção contra pragas e incêndios e arborização urbana. Diferencia-se da ambiental pelo foco na colheita e tecnologia de produtos derivados da madeira e biomassa.
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Profissões depois de se formar: Gestor de produção madeireira; administrador de parques e reservas; e consultor em legislação e sustentabilidade florestal

