Uma das maneiras mais rápidas de entender um governante recém-eleito é procurar o livro que ele escreveu antes de chegar ao poder.
No caso de Abelardo de la Espriella, vencedor da disputada eleição presidencial colombiana, essa leitura atende pelo nome de “Muerte al Tirano” (morte ao tirano). Publicado anos antes de sua campanha, o livro nasceu de uma obsessão política que acompanhou o advogado durante boa parte de sua trajetória pública: a Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
A obra parte de uma pergunta antiga, debatida desde a Antiguidade e retomada por filósofos, teólogos e juristas ao longo dos séculos: existe alguma circunstância em que a eliminação de um tirano possa ser moralmente justificável? Espriella responde afirmativamente.
Para sustentar sua tese, recorre a exemplos históricos variados e constrói uma narrativa que busca demonstrar como sociedades submetidas a regimes opressivos acabam produzindo situações-limite nas quais a resistência extrema se tornaria legítima. Essa resposta é a que causa temor em seus opositores, e com razão, por pregar uma espécie de “desobediência democrática”.
O alvo principal do livro não tem nada de histórico, mas sim contemporâneo. Maduro aparece como a personificação da tirania latino-americana do século 21. O ensaio carrega a urgência de quem não escreve apenas para interpretar o mundo, mas para intervir nele.
Lido hoje, depois da vitória eleitoral de seu autor, “Muerte al Tirano” ganha um significado diferente. Mais do que um livro sobre a Venezuela, ele se transforma numa espécie de retrato intelectual antecipado do novo presidente.
Ao longo das páginas, chama a atenção a clareza moral com que Espriella organiza seu universo político. Há tiranos e há defensores da liberdade. Há opressores e há aqueles que resistem à opressão. Os exemplos históricos convocados pelo autor, de diferentes épocas e contextos, aparecem menos como objeto de investigação do que como peças de uma argumentação destinada a confirmar uma convicção prévia.
É justamente aí que o livro se torna mais revelador. Espriella descreve um mundo de certezas. Sua trajetória pública, porém, revela uma realidade muito mais complexa.
Mais grave que tudo isso, porém, é a “muerte”, num país que não tem pena de morte. Um aspirante à Presidência poderia se expressar assim. Um presidente eleito, não.
A contradição mais conhecida de Espriella envolve Alex Saab, empresário colombiano associado ao regime venezuelano e acusado por autoridades americanas de participar de esquemas que ajudaram a sustentar economicamente o chavismo. Durante anos, Espriella atuou como seu advogado.
Advogados não respondem pelos atos de seus clientes. Defender pessoas controversas faz parte do Estado de Direito. O ponto não é jurídico. É político e narrativo. Enquanto o livro propõe uma divisão relativamente clara entre os que combatem a tirania e os que a sustentam, a vida real raramente oferece fronteiras tão nítidas.
Durante a campanha, Espriella conquistou milhões de colombianos justamente por apresentar respostas simples para problemas complexos. O antipetrismo serviu como poderoso motor eleitoral em uma disputa marcada pela polarização e decidida por margem estreita.
Para seus apoiadores, ele representa firmeza, clareza moral e disposição para enfrentar aquilo que consideram ameaças à democracia colombiana. Para seus críticos, o mesmo discurso revela uma tendência a enxergar a política como uma batalha permanente entre amigos e inimigos.
O livro ajuda a entender ambas as leituras. No fim das contas, “Muerte al Tirano” não é apenas um ensaio sobre Maduro. É um texto sobre o próprio Espriella. Suas convicções, suas obsessões e sua forma de interpretar o poder estão todas ali.
Os colombianos acabam de eleger o autor. Agora terão a oportunidade de descobrir se o homem que escreveu sobre tiranos será capaz de governar um país dividido sem transformar a política em combate permanente.
Porque livros podem se dar ao luxo das certezas. Presidentes, raramente.

