O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne nesta terça e quarta-feira (16 e 17) para avaliar os indicadores da economia brasileira e global e deliberar se cabe mais um corte de juro na atual taxa Selic, que está em 14,5%, ou se já é hora de fazer uma pausa.
Pesam no cenário de avaliação os dados de inflação de maio, registrados em 0,58%, e o acumulado de 12 meses, que superou o teto da meta. A análise da autoridade monetária deve incluir a visão de longo prazo, o ritmo de alta da inflação e os dados de atividade econômica, que se mostraram robustos.
No cenário externo, o conflito no Oriente Médio adiciona incertezas aos preços de insumos, enquanto a reprecificação de juros nos Estados Unidos traz a possibilidade de reversão na trajetória de queda do dólar.
Para Paulo Vicente, professor associado da FDC, a palavra para a próxima reunião do Copom é “tensão”. “Trata-se de uma reunião marcada pela coexistência de pressões inflacionárias relevantes, sobretudo ligadas aos combustíveis e ao cenário internacional, ao mesmo tempo em que cresce a atenção dos agentes econômicos para os efeitos do ciclo eleitoral sobre as expectativas. O Banco Central precisará sinalizar firmeza no combate à inflação sem perder de vista os riscos para a atividade econômica”, afirma.
O dilema da manutenção
Neste contexto, parte dos agentes econômicos avalia que o Copom deverá fazer uma pausa nos cortes. Na Pilar Capital, o cenário-base ancora a manutenção da Selic em 14,5%, diz Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos e negócios. Ele avalia que há uma combinação de vetores que afetam a decisão desta reunião, incluindo a expectativa de inflação acima do teto da meta, o petróleo pressionado, a piora na leitura fiscal e o câmbio sensível. “Cortar juros agora poderia transmitir ao mercado uma mensagem de tolerância maior com a inflação, justamente quando as expectativas estão se deteriorando”, afirma o diretor.
Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Investimentos, afirma que o Copom está em um “ponto crítico” na condução da política monetária. Para ele, o comitê deve manter os juros em pausa, já que os dados macroeconômicos e a situação geopolítica confirmam a leitura de “indefinição a respeito da duração, extensão e desdobramentos” do conflito no Oriente Médio apresentada pelo Copom na última reunião.
“Há de se observar que foram raros os casos na história recente do Brasil em que a autoridade monetária tomou decisão semelhante, ou seja, cortou juros enquanto as medidas de inflação corrente e as expectativas se deterioravam rapidamente em um ambiente de elevada incerteza”, afirma Vital, em relatório.
Para Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, o Copom deve optar pela manutenção dos juros em 14,50%. “Ainda há riscos demais no cenário para continuar com o ciclo de flexibilização”, diz. Ele reforça que fatores como o crédito sustentando a demanda, efeitos climáticos sobre os alimentos e a possível saída de capital estrangeiro justificam a prudência na decisão.
Espaço para o corte residual
Em contrapartida, especialistas de diferentes instituições projetam um corte residual na taxa. Leonardo Costa, economista do ASA, avalia que o Copom deve reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, sinalizando o encerramento do ciclo de cortes devido à deterioração do cenário e à resistência nos núcleos de serviços.
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Arnaldo Lima, economista da Polo Capital, também espera um corte da mesma magnitude, pontuando que o choque de oferta provocado pela guerra aparenta ser temporário, sem espaço para alta de juros no momento.
Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, reforça a previsão de queda de 0,25 ponto percentual. “O atual nível de juro real, bastante restritivo, permite a continuidade do ciclo de queda no ritmo atual”, diz.
Relatórios institucionais corroboram a viabilidade do corte. O banco Itaú vê espaço para “um novo, modesto, corte de juros na decisão de junho”, de 0,25 ponto percentual, deixando “o futuro em aberto”, com a autoridade monetária comunicando que o espaço para calibração adicional é incerto, de acordo com relatório assinado pelo economista-chefe Mario Mesquita.
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A equipe do J.P. Morgan defende o corte sob o argumento de que a política permanece restritiva e atua como um seguro contra um aperto excessivo na economia.
Leia também: Revisões de bancos e gestoras já colocam a Selic em até 14% no final de 2026
Impactos da política restritiva na economia
A manutenção dos juros em patamares elevados gera consequências diretas na atividade produtiva. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que a política monetária permanece em terreno excessivamente restritivo, com a taxa real em torno de 10% ao ano, o dobro da taxa neutra estimada pelo Banco Central.
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A entidade aponta que interromper a queda da Selic neste momento configura um erro para a atividade produtiva. Segundo a CNI, o custo da restrição de crédito resultou em níveis recordes de endividamento corporativo e inadimplência no país. Para a confederação, os juros elevados representam a “corrosão da base produtiva e das indústrias de menor porte, que sustentam o emprego e o investimento”.
Projeções e comunicação do Banco Central
Diante da pluralidade de fatores, a comunicação do Copom assume papel central na ancoragem de expectativas. Viana de Jesus atribui a palavra “cautela” para a reunião, definindo-a como uma atitude defensiva e de preservação de credibilidade.
As projeções do mercado para o encerramento de 2026 refletem a reprecificação dos ativos. Costa, do ASA, revisou a projeção de Selic apra 14,25% ao fim do ano e inflação em 5,5%. Rondinelli, da MAG Investimentos, projeta a Selic a 14% e a inflação em 5,4% para o mesmo período.
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Na Warren Investimentos, a projeção é de que o BC irá manter os juros inalterados e adotar tom neutro na comunicação, podendo voltar a encontrar espaço para corte na última reunião do ano. Neste cenário, a Selic terminaria 2026 em 14,25%.
A XP alterou seu cenário-base e, agora, prevê a taxa Selic em 14% e IPCA em 5,3% ao fim de 2026. O BTG Pactual ajustou a estimativa do IPCA de 4,9% para 5,3% em 2026, incorporando formalmente o repasse do choque do petróleo e os riscos climáticos associados ao fenômeno El Niño. O banco projeta corte de 0,25 p.p. nesta reunião, o último do ano, levando Selic a encerrar 2026 em 14,25%.

