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Chanceler do Uruguai: Delcy é tão ilegítima quanto Maduro – 10/10/2026 – Mundo


Um dos últimos governos de esquerda da América Latina em um momento no qual o pêndulo regional se moveu para o outro lado do espectro político, o Uruguai ocupa hoje dois postos importantes para observar os desafios da integração da região.

O país está na presidência temporária do Mercosul, bloco que integra com Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia; e também está na liderança da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos).

Às margens da Assembleia Geral da ONU, que em setembro reuniu chefes de Estado de todo o mundo em Nova York, o chanceler uruguaio, Mario Lubetkin, falou à reportagem sobre o cenário na região, a presença dos Estados Unidos e as eleições no Brasil.

Para o ministro do governo de Yamandú Orsi, herdeiro político de Pepe Mujica, as alianças para combater o crime organizado devem priorizar a unidade regional. Assim como o Brasil, o Uruguai não foi convidado para compor o Escudo das Américas.

Ainda sobre a região, Lubetkin diz que não há chance alguma de retomar as relações bilaterais com a Venezuela enquanto Delcy Rodríguez estiver no poder, “porque é tão ilegítima quanto Maduro”.

Sobre as eleições no Brasil, indica que a possibilidade de interferência externa é real e que é preciso estar atento. Em relação ao principal concorrente de Lula, o senador Flávio Bolsonaro (PL), e à sua proposta de abandonar o Mercosul, o chanceler diz que ele perceberia, caso eleito, que “muitas declarações feitas durante a campanha eleitoral são impraticáveis quando se assume o governo”.

Temos uma região cada vez mais polarizada. Como avalia o nível de diálogo e de integração na América Latina?

Você pode me perguntar como o Uruguai vê a situação, não como ela está, porque isso pode ter muitas variantes. O Uruguai tem uma relação excelente com todos os governos da América Latina. Além disso, assumiu várias presidências que exigem uma interação muito mais ativa. E os sinais são extraordinariamente positivos.

Por exemplo, presidimos a Celac, da qual participam todos os países da América Latina e do Caribe. Durante a assembleia das Nações Unidas, realizamos quatro reuniões da Celac. E um dos aspectos mais interessantes, além da presença de todos os países, é que todos ratificaram a necessidade de a Celac seguir adiante.

Acordamos com os indianos criar um plano de ação entre a Índia e a América Latina. Também fizemos o primeiro encontro com a União Africana. E outro com a União Europeia, no qual combinamos de direcionar todos os nossos esforços para a primeira cúpula presidencial Celac-União Europeia, em junho, em Bruxelas.

Se houvesse uma polarização tão intensa, ela romperia organizações tão frágeis e que enfrentaram tantos conflitos, como é o caso da Celac. Não é verdade que, somente por uma questão ideológica, seja possível fechar fronteiras. Temos os mesmos problemas para resolver. Todos enfrentamos o problema da segurança. Todos enfrentamos o problema da estabilidade socioeconômica.

O sr. mencionou a questão da segurança. O Uruguai foi convidado pelos Estados Unidos para o Escudo das Américas?

Não. Mas aí está um exemplo. Não estamos no Escudo das Américas, mas participamos do processo de segurança da nossa região: o Compromisso de Santiago, lançado pelo Chile. Pela primeira vez, todos os presidentes do Compromisso se reuniram e discutiram um conjunto de bases sobre como será realizado o trabalho [às margens da Assembleia Geral, com os sete países-membros: Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai].

A discussão não é “segurança sim ou segurança não”, mas quais organismos farão essa articulação. E estamos muito à vontade no âmbito da integração e da ação conjunta com nossos países irmãos.

Como o sr. avalia as ações dos Estados Unidos na região?

Mais do que comentar o que a administração dos EUA está fazendo, nós nos concentramos no que temos de fazer. Partimos do princípio de que nenhum dos nossos países conseguirá resolver sozinho as questões do combate ao narcotráfico. Temos um inimigo muito poderoso. Boa sorte a cada um que aplicar aquilo que quiser. Nós sabemos o que temos de fazer e faremos isso com os países vizinhos.

Em primeiro lugar, a estratégia dos EUA não está nem um pouco clara. No dia em que me explicarem bem, aí poderei dar uma opinião.

Há sete países no Compromisso de Santiago. O Brasil não participa. Como é possível estabelecer um compromisso de segurança na região sem o Brasil?

Acredito que este seja um processo em expansão. Acho que todos os atores precisam participar. Quando ocorreu a reunião de presidentes, ao fim do encontro vários presidentes disseram, com muita ênfase, que todos os países da América do Sul precisam estar presentes. Depois, naturalmente, cada país decide o que quer.

Temos eleições no Brasil.

Vamos cruzar os dedos.

Se Flávio Bolsonaro vencer, como ficam as relações? O governo do Uruguai é muito próximo ao presidente Lula. Como veem as eleições no Brasil?

Primeiro, que sejam eleições limpas, transparentes, democráticas e serenas, como vem ocorrendo em todos os países da região. Depois, naturalmente, o povo brasileiro escolherá quem considerar melhor, e nós trabalharemos com quem vencer, como política de Estado.

Veem algum risco de interferência externa nas eleições?

Isso ocorreu em outros países, portanto é preciso estar muito atento. Interferência tecnológica.

Flávio afirma que quer sair do Mercosul. Se o Brasil sair do Mercosul, quais serão as consequências para o bloco?

Primeiro, não é fácil sair do Mercosul. Há acordos interligados demais no âmbito empresarial, e isso provocaria perdas importantes para a economia brasileira. E há mecanismos demais que impedem uma saída tão rápida.

Espero que, se couber a esse senhor presidir o Brasil, quando começar a governar ele perceba que muitas declarações feitas durante a campanha eleitoral são impraticáveis quando se assume o governo.

Objetivamente, o Brasil perde. Não é que o Brasil, sozinho e sem todo o restante da sub-região, seja mais forte; é mais fraco. E imagino que saibam calcular e avaliar isso.

Já retomaram as relações diplomáticas com Caracas?

De forma alguma, e não vamos retomá-las.

Por quê?

Porque nada mudou. Houve eleições que questionamos. Delas surgiu um presidente que agora, além de tudo, está preso nos EUA, e desse presidente surge uma presidenta tão ilegítima quanto ele. Portanto, para nós, a solução para a Venezuela é muito clara: que haja eleições, que alguém vença, que uma corte independente confirme que María ou José ganhou e, 15 minutos depois, estabeleceremos relações diplomáticas com o legítimo vencedor de uma eleição democrática.

Há muitos cubanos no Uruguai. Como veem a situação em Cuba?

Acho que este é, sem dúvida, o momento mais grave.

Acredito que uma das chaves a desenvolver envolve dois tipos de diálogo: um diálogo franco e voltado à negociação entre os EUA e Cuba. E também deve haver um diálogo franco dentro da sociedade cubana. Não vou criticar o que aconteceu ao longo dos últimos 50 anos. O que digo é que, se traçarmos uma linha a partir de hoje, a sociedade cubana precisa se reencontrar de alguma maneira para projetar seu próprio futuro como sociedade.

O que temos de fazer é ajudar, caso nos chamem para isso. Enviamos leite em pó em conjunto com os mexicanos. Estamos dispostos a enviar painéis solares pelo caminho que for possível.

O acordo Mercosul-União Europeia já está em funcionamento. Já temos algumas consequências positivas no comércio, mas ele também está sendo analisado pela Justiça europeia. Quais são os desafios?

O acordo está funcionando. Do nosso lado, com a ratificação parlamentar dos quatro países; do lado da União Europeia, com a ativação da cláusula provisória. Se a pergunta é quando ocorrerá a ratificação pelo Parlamento Europeu, acredito que isso levará muito tempo. Vamos operar em caráter provisório por bastante tempo.

O acordo entrou em vigor em 1º de maio. Temos neste momento uma economia de US$ 35 milhões para o Uruguai se somamos o economizado com a queda das tarifas e com as cotas de importação e exportação. Para outros países, US$ 35 milhões são uma cosquinha. Para o Uruguai, é significativo [o PIB do país é de US$ 96 bilhões]. Nesse ritmo, ultrapassaremos US$ 100 milhões em um ano.


Raio-X | Mario Lubetkin, 66

Atual ministro de Relações Exteriores do Uruguai, é jornalista e foi representante para a América Latina e o Caribe na FAO, a Organização da ONU para Alimentação e Agricultura (2022 – 2025).



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