O Acordo de Paz das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), cuja assinatura da primeira versão completou dez anos neste sábado (26), levou Diego Calderón-Franco para o início dos anos 2000, quando ainda era um estudante de biologia na Universidade de Antioquia que começava a se interessar por aves.
Em 2004, o colombiano foi sequestrado pela guerrilha quando fazia uma expedição científica a Serranía del Perijá, ficando sob custódia dos combatentes por 88 dias. O pacto entre o governo e o grupo armado abriu caminho para que o biólogo reencontrasse alguns de seus sequestradores —desta vez, para fazer expedições juntos.
Desde 2016, Franco já fez cerca de dez capacitações de observações de aves com ex-guerrilheiros e transformou isso em uma palestra. A iniciativa, diz, é uma tentativa de apresentar outro ângulo do conflito e, a partir disso, “deixar as pessoas desconfortáveis com respeito e carinho”.
Eu comecei a estudar biologia na Universidade de Antioquia em 2000. Naquele ano, a situação da guerra civil estava melhorando um pouquinho em algumas partes da zona rural; em outras, piorando muito. E, como estudante de graduação, eu vivia situações absurdas.
Era normal que nós, garotos de 18, 19, 20 anos, fôssemos parados por grupos armados quando saíamos a campo. Levávamos uma carta da universidade dizendo: “A quem possa interessar, muito obrigado por ajudar estes jovens, eles estão fazendo uma pesquisa”.
Mais ou menos no meio da minha graduação, eu planejei uma expedição científica a Serranía del Perijá com botânicos, ictiólogos e ornitólogos —naquele momento, eu já tinha interesse em aves. Desde os anos 1970, a região estava quase sem exploração, em parte por conta do conflito, então havia uma grande quantidade de biodiversidade desconhecida. Era tranquilo, sem presença guerrilheira por mais de quatro anos. Então fiz uma viagem inicial com um botânico e um guia local da região.
E foi aí que nos sequestraram.
Na última tarde, antes de dormir, vimos chegar uma tropa de mulas carregadas com sacos de comida e dois homens vestidos à paisana. Eles passaram, nos cumprimentaram, pararam um pouco mais adiante, voltaram e pediram permissão para dormir onde estávamos hospedados.
No dia seguinte, depois de tomarmos café da manhã e nos despedirmos, esses senhores se identificaram. “Nós somos guerrilheiros da Frente 41 das Farc e vocês não podem ir embora hoje. Nosso comandante ficou muito curioso para saber quem são vocês e o que estão fazendo aqui.”
Entregamos as cartas da universidade e eles mandaram para o comandante. Passou um dia e não houve nenhuma resposta. No dia seguinte, quando acordamos, havia uns 100 guerrilheiros com armas e uniformes do lado de fora da casa.
Levou umas duas semanas para o comandante verificar que éramos realmente das universidades que dizíamos ser. E, quando entenderam, pediram um resgate. Eu virei um pacote esperando ser pago e liberado.
Fiquei sequestrado por 88 dias. É uma sensação muito estranha, de voltar a ser um bebê. Ter que pedir: “Quem me leva ao banheiro?”.
Obviamente, todo mundo processa essas experiências de maneira diferente, mas eu nunca fiquei deprimido. Para mim, a minha situação era muito fácil em comparação com a da minha família. Eles não sabiam o que estava acontecendo. Todos os dias se sentavam para comer e não sabiam se eu estava comendo.
Nós estávamos no mato e éramos estudantes de biologia. Então sempre podíamos olhar para a situação de uma maneira melhor, muito estoicamente. Passávamos horas analisando formigas. Encontramos um besouro gigante e amarramos uma corda nele. Deixávamos ele subir pelas árvores e, depois de duas horas, puxávamos para ele subir em outra.
Uma pergunta que sempre fazem é: “Você teve medo?”. Fora o comandante, o resto era formado por gente comum, camponeses que estavam ali brincando de guerrilheiro, sem fazer ideia do que estavam fazendo. De certa maneira, tinham compaixão por nós. Havia gente que estava ali forçada pela situação. Havia gente que estava ali porque, se não entrasse no grupo guerrilheiro, os paramilitares teriam matado.
Depois de dois meses, libertaram o botânico e o guia local que estavam comigo, mas eu fiquei. Um dia, estava subindo do banho no rio e perguntei a uma guerrilheira, como fazia todos os dias: “O que você sabe sobre a minha situação?” E ela respondeu algo diferente: “Vou te dar notícias em breve”. Naquela tarde, entrou na minha cabana, sentou ao meu lado e disse: “Faça as malas, você vai embora amanhã”.
Fui libertado e segui minha vida normal. Quando terminei de estudar biologia, em 2007, comecei a trabalhar no que faço hoje, que é turismo e observação de aves.
Em 2016, quando começa o burburinho do Acordo de Paz, eu sinto o desejo de fazer algo. Achei absurdamente lógico que a Colômbia tivesse um Acordo de Paz com um grupo guerrilheiro, qualquer que fosse —naquele caso, com o maior e mais antigo, com mais de 10 mil combatentes.
Depois de assinado o documento, foi criado um fundo para explorar áreas que estavam inacessíveis devido ao conflito. Uma delas era em Antioquia, ao norte de Medellín. Um amigo meu estava coordenando.
Foi uma experiência brutal. Eram 60 pessoas. Você não era capaz de reconhecer quem era quem. Havia guerrilheiros, estudantes, vítimas, algozes, observadores internacionais das Nações Unidas, presidentes de juntas de ação comunal, professores colombianos, todos fazendo a mesma coisa: pesquisando plantas e pássaros.
Desde então, já fiz cerca de dez expedições ou capacitações, a maioria organizada por amigos, com ex-guerrilheiros e conheci várias pessoas que estiveram durante meu sequestro. Um deles foi Omar, que hoje é diretor de uma oficina de confecções.
Cheguei de surpresa: “Omar, tudo bem?”. Ele não me reconheceu a princípio. Perguntei: “Você não lembra?”. Ele não me pediu desculpas —ninguém que estava no meu sequestro me pediu desculpas, o que não me fez falta. Mas ele me deu um presente quando me contou uma história.
“Veja, Diego, minha primeira professora na vida foi uma senhora que nós tivemos lá”, disse. Sequestrada, claro. “Ela pegou dez guerrilheiros que não sabiam diferenciar o A do O e ensinou todos a ler, escrever, somar e subtrair.”
Se ainda temos dúvidas, a origem e a gasolina do conflito armado na Colômbia são a falta de oportunidades.
Às vezes, um dos efeitos mais importantes de eu ir nessas expedições é alguém falar: “Nós o sequestramos e ele está aqui, não nos odeia e não vai nos agredir”. E é como se as aves nos conectassem. Vamos observá-las.


