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Acordo de Paz não fez das Farc força política na Colômbia – 26/09/2026 – Mundo


Luis Alberto Albán Urbano tinha 20 anos quando entrou nas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), grupo que empreendeu uma luta armada de mais de cinco décadas contra governos da Colômbia sob o argumento de que a via política estava bloqueada para a esquerda no país.

O ex-guerrilheiro ganhou um pseudônimo —Marcos Calarcá—, foi preso na Bolívia, participou de processos de negociação do grupo armado e comemorou seu aniversário de 60 anos antes de conseguir entrar no Congresso como deputado, em 2018.

Por isso, quando ouviu, em novembro de 2017, que deveria ir a uma entrevista coletiva no dia seguinte porque seria candidato à Câmara pelo departamento de Valle del Cauca, só conseguiu pensar: “Como assim?”.

“Foi um susto enorme no início, e depois pensamos em como aprender rapidamente para atuar na política institucional”, afirma Albán, que representou seu partido na Câmara de 2018 a 2026.

A entrega das armas e a criação dos Comunes, atual nome da agremiação, é vista como um dos principais triunfos do Acordo de Paz de 2016, cuja primeira versão, posteriormente reformulada após os colombianos rejeitarem o texto em um plebiscito, completou dez anos neste sábado (26).

As eleições legislativas de março de 2026, porém, confirmaram que a relevância eleitoral da legenda se devia aos assentos garantidos pelo pacto. Além de não eleger nenhum candidato, os Comunes tiveram seu pior desempenho desde a criação do partido.

Tal declínio seria, então, um fracasso da negociação? Para Albán, não.

“O acordo abriu as portas para um governo de esquerda”, afirma o ex-deputado sobre a gestão de Gustavo Petro, a primeira de esquerda da história recente da Colômbia. Sua avaliação encontra eco entre especialistas que acompanharam os desdobramentos políticos do documento.

“O Acordo de Paz criou um cenário no qual havia uma grande esperança de mudança”, afirma Ángela Liliana Olaya Castro, diretora da Fundação Conflict Responses. “Foi um caminho no qual o documento foi a maior expressão, já que abriu conversas sobre política em diversos níveis.”

Os obstáculos dos ex-guerrilheiros apareciam no horizonte já em 2018, primeiro ano em que as Farc participaram de eleições —sob a mesma sigla do grupo armado, mas com o nome Força Alternativa Revolucionária do Comum. Naquele ano, o partido nem sequer conseguiu ter candidato à Presidência.

Dois meses antes da votação daquele ano, o último líder da guerrilha, Rodrigo Londoño, retirou sua candidatura mencionando motivos de saúde e ataques que sofreu ao longo da campanha. Naquele momento, sua candidatura acumulava cerca de 1% das intenções de voto.

Nas eleições legislativas do mesmo ano, os candidatos do partido conseguiram pouco mais de 85 mil votos e chegaram ao Congresso graças à reserva de dez cadeiras para a sigla. O mesmo ocorreu em 2022, quando os simpatizantes da legenda eram ainda menos numerosos. Em 2026, quando o acordo já não obrigava o Estado a manter uma representação fixa da ex-guerrilha no Legislativo, ninguém foi eleito.

Algo parecido aconteceu nas eleições locais. Em 2019, o grupo conquistou 96.447 votos em 23 departamentos e Bogotá. Em 2023, o número de votos caiu para 13.772, uma redução de 85,7% em relação ao pleito anterior, em 15 das 33 divisões administrativas do país.

Nem mesmo a mudança de nome para Comunes, em 2021, ajudou. Albán conta que a atualização ocorreu porque, naquele momento, “começava a crescer a estigmatização” contra o grupo. “Pensamos: vamos apagar isso, vamos mudar nosso nome e continuar com nossos ideais, nossos princípios, nossos objetivos de luta”, afirma o ex-guerrilheiro.

Em outros contextos, guerrilhas latino-americanas tiveram mais sucesso político ou eleitoral. O Movimento 26 de Julho, de Cuba, e a Frente Sandinista de Libertação Nacional, da Nicarágua, são os exemplos mais lembrados por terem derrubado ditadores e tomado o poder em 1959 e 1979, respectivamente.

Mas no Uruguai, por exemplo, os membros dos Tupamaros se juntaram a outros ex-guerrilheiros e fundaram o Movimento de Participação Popular, do ex-presidente José Mujica, em 1989. Em El Salvador, a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional tampouco tomou o poder no fim da guerra civil do país, em 1992, mas se manteve como a segunda força política por anos até chegar à Presidência, em 2009.

Em 1985, mesma época em que essas várias guerrilhas da região deixaram as armas, as Farc tentaram, em conjunto com outros grupos de esquerda, incluindo o Partido Comunista da Colômbia, criar um partido a partir de um acordo de cessar-fogo com o então governo.

A União Patriótica, nome da sigla, conseguiu se tornar a terceira força política do país nas eleições de 1986. Nos anos seguintes, porém, quase todos os eleitos foram assassinados, segundo relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos —incluindo Manuel Cepeda, pai do candidato de esquerda derrotado pelo ultradireitista Abelardo de la Espriella nas eleições presidenciais deste ano.

Apesar de todas as dificuldades, Albán não nega erros dos próprios Comunes. “Não tínhamos experiência. Tivemos oito anos para aprender”, diz sobre sua passagem pelo Congresso.

Em ambas as legislaturas, conta o político, a prioridade era uma: avançar com leis para implementar integralmente o Acordo de Paz. Eles sabiam que seria difícil tirar o plano do papel durante a Presidência de Iván Duque, um crítico das negociações que liderou a Colômbia de 2018 a 2022. Mas pensaram que a situação mudaria com Petro.

“Estávamos enganados. Foi uma luta constante dentro do governo para avançar em questões de paz e de cumprimento das cláusulas”, diz Albán. “Não encontramos o apoio que esperávamos em questões que dependem do governo.”

À inexperiência somavam-se disputas internas sobre como passariam de uma estratégia armada para uma mobilização estritamente civil, afirma Ángela, da Conflict Responses.

“Ao longo desses dez anos, muitas pessoas decidiram sair do partido e buscar novas formas de participação política. Por isso existe, em diferentes zonas, uma proposta muito mais territorial, com cooperativas e outras abordagem de organização para os signatários do acordo”, diz.

Por isso, afirma a cientista política, o número de votos não é a melhor maneira de medir o sucesso do pacto. “Normalmente pensamos na participação popular com a perspectiva político-eleitoral —o que realmente é um dos grandes indicadores—, mas a participação em outros contextos políticos pode ser mais importante”, afirma.

Nas eleições de 2023, por exemplo, as Juntas Administradoras Locais, uma espécie de órgão legislativo de bairros, concentraram 26,3% da votação total dos Comunes, de acordo com a Fundação Ideias para a Paz.

Para Albán, o balanço dos últimos dez anos é de avanço. “Somos um partido político que teve dois mandatos com dez membros no Congresso, cinco no Senado e cinco na Câmara dos Representantes. Um partido que fez progressos em sua integração social e alcançou reconhecimento”, afirma. “Esse reconhecimento não se traduz em votos.”



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