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O que você precisa saber da Assembleia Geral da ONU – 25/09/2026 – Mundo


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Fundamental para a diplomacia global, a Assembleia Geral da ONU é menos um momento de grandes anúncios e novidades e mais um espaço de símbolos.

Até para quem cobre o assunto é impossível acompanhar tudo o que acontece. São discursos dos 193 Estados-membros, mais observadores como Palestina e Vaticano, eventos paralelos, reuniões bilaterais e encontros multilaterais ao longo de uma semana.

Na sede da organização, em Nova York, estão novos líderes e decanos da diplomacia mundial. Representantes de países inimigos circulam pelos mesmos corredores e sobem à mesma tribuna para destacar o que acham necessário internacional e domesticamente. E passam recados diretos e indiretos.

Um exemplo de símbolo que ocorreu pelo segundo ano seguido: delegações críticas a Israel deixaram o salão da Assembleia antes do discurso do premiê Binyamin Netanyahu (incluindo o Brasil). Ele os chamou de covardes, em discurso recheado de ataques e críticas.

Abaixo, destaco alguns momentos que estiveram sob os holofotes e outros que podem ter passado por baixo do radar.

O presidente Lula (PT) abriu os trabalhos na segunda-feira. A tradição de décadas de o Brasil iniciar o chamado debate geral se juntou à quase tradicional mescla de assuntos internacionais e domésticos nos discursos do brasileiro, que esteve em sua décima participação (talvez sua última, caso não vença a eleição).

Lula bateu na tecla da soberania. Disse que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém“, um recado evidente aos EUA de Donald Trump, mas também bandeira central de sua campanha.

Trouxe temas que unem a esquerda nacional à global, como Gaza, crise climática e até o fim da escala 6×1, assunto que parece deslocado num palco internacional, mas que apela a líderes trabalhistas com os quais têm buscado se conectar. Em Nova York, ele não viu Trump nem nos bastidores; mas se reuniu com o prefeito da cidade, Zohran Mamdani, o senador Bernie Sanders e o presidente uruguaio, Yamandú Orsi.

O americano não surpreende mais pelo que fala ou faz, mas pela insistência em ser um rolo compressor da ordem que sustentou a hegemonia americana nas últimas décadas. Disse, por exemplo, que tem uma escolha entre negociar ou aniquilar o Irã. Prometeu que o regime de Cuba iria cair. Chamou o acordo para tomar controle de parte do petróleo da Venezuela de maior acordo da história e acrescentou: “ao vencedor os espólios.” E afirmou que jamais vai frear o desenvolvimento da inteligência artificial porque quem dominá-la será o vencedor.

Em suma, usou a tribuna da ONU para atropelar a Carta da ONU.

Delcy Rodríguez fez seu primeiro discurso como líder da Venezuela na mesma Nova York em que está preso Nicolás Maduro. Ela nem sequer citou o ditador deposto, que será julgado em 2027 em cortes americanas, e ainda elogiou o carrasco do ex-chefe, Donald Trump. Ela também se reuniu com o americano.

Delcy tentou se posicionar como a guardiã da transição democrática venezuelana, que ela disse não poder ser uma ruptura. Falou em eleições sem dar detalhes, usou diversas vezes o tema reconstrução e renascimento, e tentou pintar um país que está se abrindo ao mundo e se reformando.

Para a maioria dos venezuelanos, que permanecem ou deixaram o país, não cola: ela é vista como mais do mesmo, continuidade do madurismo que levou o país a momentos de grave crise, e só sugere aberturas porque está sob o jugo de Washington. E ainda há mais de 344 presos políticos sob o regime, 191 deles detidos sem condenação, segundo a ONG Foro Penal, que acompanha o tema.

A líder opositora María Corina Machado diz que tentou entrar três vezes no país nesta semana e foi barrada. Manifestantes em Caracas pedem o retorno dela.

  • Amigos do Capitão América

À margem da Assembleia, Trump se reuniu com aliados da América Latina em uma reunião do Escudo das Américas, iniciativa de Washington para retomar sua influência no hemisfério sob bases securitárias.

No mesmo dia, o grupo divulgou um comunicado conjunto indicando a intenção de que todos os signatários vão classificar como terroristas grupos criminosos do continente, incluindo os brasileiros PCC e Comando Vermelho. O Brasil foi pego de surpresa.

Na reunião, o americano nem escondeu suas intenções: “Apoiei alguns de vocês, e conquistamos grandes vitórias eleitorais” disse. “Acho que meu placar é de nove vitórias em nove disputas: todos que apoiei venceram. Estamos vencendo muito. Estou com vocês até o fim e farei tudo o que estiver ao meu alcance.”

  • Colegas do Capitão América

Trump também se reuniu com países árabes e muçulmanos do Oriente Médio à margem do evento. Vários deles embarcaram na proposta do americano para o “Conselho da Paz” para Gaza, e agora Trump tenta agregá-los em torno de um acordo para encerrar a guerra contra o Irã —a missão aqui é mais fácil, já que a maioria deles foi alvo da reação de Teerã.

Ali as relações são mais complexas, no entanto. A Arábia Saudita, por exemplo, está mordida com a falta de disposição de Washington de ajudá-la contra os houthis no Iêmen e vê sua relação com os Emirados Árabes Unidos se deteriorar. A Turquia e a Síria têm escalado a retórica contra Israel, principal aliado dos EUA na região. Omã tem feito seus avanços com o Irã para um acordo em Hormuz.

O republicano deu a dica do que pode ser a próxima grande ação americana no conflito, até aqui estagnado: “destruímos instalações [nucleares] deles, mas pode ser que a gente precise explodir mais uma, a Pickaxe Mountain [montanha picareta]”.

Uma curiosidade: diante de uma sala apenas com líderes do Oriente Médio, Trump gastou 1 minuto de seus pouco mais de 12 minutos de discurso aberto (a imprensa foi retirada da sala em seguida) para falar das eleições de meio de mandato. “Eu não penso sobre a eleição quando penso em acabar com a ameaça nuclear do Irã. Isso não tem nada a ver com a eleição”. Ninguém tinha perguntado.

O combativo discurso de Netanyahu não foi o único do plenário, e é evidente que o outro neste tom seria o do Irã, representado pelo presidente persa. Masoud Pezeshkian acusou Israel e EUA de terrorismo e mostrou fotos de crianças mortas em ataque em escola em Minab, no sul do país, no início da guerra.

Um trecho de seu discurso dá o tom da tentativa do Irã de continuar desafiando os rivais e quem se alia a eles na região:

“O Irã estende sua mão ao mundo, não de uma posição de fraqueza, mas a partir da crença em nosso poder e prontidão para cooperar e colaborar, porque é nossa crença profunda que ninguém nessa região terá segurança sozinho. Ou todos construímos isso juntos, ou viveremos sob insegurança juntos.”

Outro evento à margem da Assembleia Geral foi uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para debater os riscos do desenvolvimento da inteligência artificial.

Foram convidados Sam Altman (OpenAI), Dario Amodei (Anthropic) e Clément Delangue (Hugging Face), e os três defenderam regulação e cooperação global para a tecnologia que eles próprios desenvolvem.

  • Acordo para americano ver

Os EUA e a Dinamarca assinaram o acordo de segurança anunciado na semana passada sobre a Groenlândia. Alardeado por Trump e seu gabinete como histórico, o pacto na realidade só é um sucesso de fato para a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen.

Isso porque, depois de inúmeras ameaças de Trump de tomar ou comprar a ilha, o texto do acordo carimba o reconhecimento da soberania groenlandesa, enquanto concede aos EUA autorização para abrir mais bases no local (o que já era previsto por tratos anteriores). Ou seja: o americano pode cantar vitória, a Dinamarca repele uma ameaça vinda de um aliado e, fora detalhes dos quais não sabemos, tudo segue mais ou menos como já estava.

Xi Jinping não falou e não vai falar na ONU, mas visitou Donald Trump na Casa Branca na mesma semana. Foi a primeira vez que os dois se encontraram na sede do Executivo americano.

O chinês foi recebido por Trump com tapete vermelho assim que saiu de seu avião, e todos os eventos foram oferecidos com pompa. Ele deixa o país nesta sexta (25).

O republicano fez votos de “grande amizade” com o líder chinês, e Xi falou que os dois países precisam ser “parceiros, não rivais“. São platitudes, mas platitudes que carregam uma simbologia importante ao indicar que as duas potências preferem ao menos tentar dialogar (e ao menos no curto prazo), em vez de buscar o confronto.

E o momento é para isso mesmo, para os EUA. Atolado na guerra no Irã, sob pressão inflacionária e eleitoral e atropelando aliados, não parece razoável para Trump esticar ainda mais a já tensionada relação com Pequim, em particular em termos de comércio, guarda-chuva geral cujos tópicos principais são guerra tarifária, acesso a terras raras e inteligência artificial.



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