No mesmo mês em que os principais clubes de futebol do país se reuniram em nota conjunta em defesa das bets esportivas, um levantamento mostrou que 1 em cada 5 estudantes da educação básica já apostou online. O estudo, realizado pela Frente Parlamentar Mista da Educação em parceria com o Equidade.info, ouviu quase 2.000 alunos de 191 escolas de ensino fundamental e médio de todo o Brasil.
Os dados revelam que as crianças começam a apostar por volta dos 11 anos e que os meninos são mais suscetíveis do que as meninas a esse tipo de plataforma. Ademais, 4 em cada 10 estudantes não conseguem identificar se obtiveram ganhos ou se incorreram em perdas ao realizarem apostas.
É inegável que a exposição do público brasileiro às bets chegou a um nível inédito, e isso inclui crianças e adolescentes. Esta é a conclusão do Relatório Bets e Patrocínios no Futebol Masculino Brasileiro, produzido pelo Leme (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte), da Uerj (Universidade Estadual do Estado do Rio de Janeiro). O documento afirma que, na temporada de 2025, todos os 20 clubes da Série A tinham algum patrocínio de casa de apostas, sendo 18 deles com patrocínio máster. Já na segunda divisão, apenas três clubes não apresentavam contratos do tipo.
Ainda que essas plataformas sejam proibidas para menores de idade, é indiscutível que eles têm conseguido acessá-las. É preciso, portanto, fazer valer o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que impõe a aferição de idade, a moderação de conteúdo e a proteção dos dados do público infantojuvenil contra publicidade direcionada em aplicativos e mídias sociais. O texto também determina que as empresas de tecnologia impeçam o acesso de menores de idade a “promoção e comercialização de jogos de azar, apostas de quota fixa e loterias”. Vigilância, fiscalização e aplicação da legislação são, portanto, urgentes.
Por outro lado, a exposição de crianças e adolescentes às marcas de bets, especialmente na transmissão de eventos esportivos, também precisa ser discutida. Casos como o da CazéTV durante a última Copa do Mundo são exemplos de como a pressão social pode fazer a diferença quando se trata de um tema que tem adoecido, endividado e arruinado famílias inteiras no Brasil.
Enquanto isso não acontece, é tarefa das famílias dialogar e supervisionar o uso que crianças e adolescentes estão fazendo dos celulares e tablets. O GHS SA (Gambling Harm Support SA), órgão vinculado ao Departamento de Serviços Humanos da Austrália, sugere que os responsáveis olhem para os próprios hábitos com o objetivo de verificar se não estão induzindo os filhos ao vício.
Também orienta as famílias a estabelecer tempo de tela; conversar sobre jogos em casa; revisar as configurações de segurança e publicidade e ativar o controle parental nos dispositivos; bloquear o acesso a plataformas de apostas; brincar com os jogos das crianças na companhia delas e a atentar-se a mudanças de comportamento.
Enquanto o debate público segue aquecido sobre o tema, discutindo inclusive a proibição das apostas esportivas —posição de 75% dos brasileiros, segundo uma pesquisa recém-divulgada da Atlas/Bloomberg—, não podemos perder de vista a proteção e a segurança de quem ainda está em uma faixa etária vulnerável e imprópria para tomar decisões que podem ter um impacto determinante a curto prazo em suas vidas: as crianças e os adolescentes.


