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Empresa que opera sistema financeiro do Estado foi alvo do Gaeco; dono tem sociedade com Rodrigo Perez


Infortech, apontada pelo MP como parte do “mesmo grupo econômico” da Redvalue, mantém contrato de R$ 90,4 milhões com a Fazenda, cuida da dívida ativa na PGE e teve aditivo de R$ 8,8 milhões assinado em abril por Mário Salero, que é sócio do secretário de governo Rodrigo Perez em uma pousada.

A terceira empresa da cotação que, segundo o Ministério Público, serviu para simular concorrência na contratação da Redvalue pela Santa Casa, não é uma empresa de fachada. A Infortech Informática Ltda. é um dos maiores fornecedores de tecnologia do Governo de Mato Grosso do Sul: opera e desenvolve o Sistema de Planejamento e Finanças (SPF), coração da contabilidade estadual, por meio de um contrato com a Secretaria de Estado de Fazenda (SEFAZ) que o Portal da Transparência registra hoje em R$ 90,4 milhões; sustenta o Sistema de Dívida Ativa e a base de dados PESSOA-MS na Procuradoria-Geral do Estado (PGE); e presta serviço à Fundect por inexigibilidade de licitação.

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O proprietário da empresa, Claudino Abreu de Jesus, foi alvo de busca e apreensão na quinta-feira (11). Desde 09 de outubro do ano passado, a Infortech tem como sócio Mario Salaro e Real Participação e Gestão S/A. Salaro, inclusive, assina os aditivos mais recentes do contrato da Sefaz com a Infortech e dentre outros négocios, é sócio do secretário de governo e gestão estratégica Rodrigo Perez, na Pousada Rancho da Barra Ltda, no distrito de Taunay, em Aquidauana.

Entre 2019 e 2026, o Executivo estadual pagou à empresa R$ 135,6 milhões, segundo levantamento feito pela reportagem nas bases de despesa do Portal da Transparência de MS.

O valor cresce todos os anos: R$ 3 milhões em 2019; R$ 8 milhões em 2020; R$ 10,2 milhões em 2021; R$ 17,7 milhões em 2022; R$ 23,3 milhões em 2023; R$ 27,4 milhões em 2024; R$ 29,6 milhões em 2025 e R$ 16,4 milhões em 2026 até a última atualização do portal. Nada disso passa pela Santa Casa.

A Redvalue e a EXBE, as outras duas empresas do grupo apontado pelo MP, não aparecem como credoras do Estado em nenhum exercício e não têm um único registro no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP).

A Infortech foi alvo de busca e apreensão na Operação Antidotum, deflagrada na quinta-feira (11), na sede no Chácara Cachoeira. Seu proprietário formal, Claudiano Abreu de Jesus, também teve a residência vasculhada. Ele não teve prisão pedida.

“Mesmo grupo econômico”

Na representação de 17 de agosto, o Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) narra que a Santa Casa consultou a Infortech em 8 de agosto de 2024 para formar o preço do serviço de digitalização de prontuários. A empresa respondeu com proposta de R$ 0,12 por página. A Redvalue, de Maurício Aparecido Benites, apresentou R$ 0,05 e levou o contrato de R$ 150 mil por mês, assinado em 29 de outubro de 2024. Para o MP, as propostas “foram produzidas dentro do mesmo grupo econômico para simular competição”.

Os promotores sustentam a ligação com três elementos. O primeiro é o próprio Benites: segundo o perfil profissional dele na rede LinkedIn, citado nos autos, foi “diretor executivo” da Infortech de março de 2017 a agosto de 2024, o mês da cotação. Ao enviar à Santa Casa a documentação da Redvalue, a partir do e-mail “financeiro@redvalue.com.br”, ele copiou o próprio endereço no domínio “@infortechms.com.br”.

O currículo encontrado, pelos investigadores, em seus arquivos digitais o apresenta como fundador e CEO da EXBE, diretor executivo da Redvalue e “dirigente” da Infortech, com e-mails nos três domínios.

O segundo elemento é financeiro. A quebra de sigilo bancário localizou transferências da Infortech para a EXBE “identificadas como despesas, aluguel de carro e folha de pagamento”, partindo de conta “solicitada por Claudiano de Jesus”.

O terceiro é trabalhista: Fernanda de Freitas Diniz, companheira de Benites e que assumiu formalmente a EXBE em 18 de fevereiro de 2026, era empregada registrada da Infortech em maio de 2024, conforme guia de FGTS apreendida.

Na divisão de tarefas que o MP atribui ao grupo, Claudiano “colocou a Infortech, empresa por ele formalmente controlada, a serviço do mesmo grupo, inclusive mediante circulação financeira com a EXBE e com a própria Redvalue”. A juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, considerou os indícios suficientes para a busca: a Infortech “também participou da cotação apresentada como concorrencial”, Benites “havia exercido função de direção na empresa” e houve “circulação financeira entre empresas apresentadas formalmente como independentes”.

Contrato da Sefaz


Enquanto isso, a Infortech seguia, e segue, dentro da máquina do Estado. O Contrato 057/2022, assinado em 20 de setembro de 2022 pelo então secretário de Fazenda Luiz Renato Adler Ralho e por Claudiano Abreu de Jesus, contratou “serviços técnicos de informática para sustentação e desenvolvimento de novas funcionalidades” no SPF, o sistema pelo qual passam empenhos, liquidações e pagamentos de todo o Executivo. O termo, vinculado ao Pregão Eletrônico 0020/2022 e financiado pelo programa Profisco II, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), fixou R$ 23,9 milhões para 24 meses, prorrogáveis até 60.

De lá para cá, o contrato ganhou quatro aditivos. Em 9 de agosto de 2024, um dia depois de a Infortech entregar sua proposta à Santa Casa, a SEFAZ concedeu acréscimo de 25% a um dos itens. Em setembro de 2024 e setembro de 2025, prorrogou a vigência por 12 meses em cada vez, até 19 de setembro de 2026, ou seja, a próxima semana.

E em 9 de abril de 2026 o secretário Flávio César Mendes de Oliveira assinou o quarto termo: acréscimo de 138 mil unidades de serviço técnico (UST) a R$ 64,00 cada, ou R$ 8.832.000,00, elevando o “valor global atualizado” a R$ 90,4 milhões, o número que hoje consta do Portal da Transparência.

Nos três primeiros aditivos, a Infortech é representada por Claudiano Abreu de Jesus, que assina digitalmente o segundo e o terceiro. No quarto, não. Quem assina pela Infortech, como “representante legal”, é Mario Salaro Neto.

O sócio que a Justiça deixou de fora?

O nome importa porque, em 1º de setembro, o MP pediu à juíza que estendesse a busca e apreensão a Mario Salaro Neto, à Real Participação e Gestão S/A e à representante legal desta, Fernanda Fontoura Ribeiro Name.

Segundo os promotores, os dois passaram a ser sócios da Infortech em 9 de outubro de 2025, “durante o período de execução do contrato investigado”: os últimos Pix da Santa Casa à Redvalue, de R$ 563.100 (12 de março de 2026) e R$ 422.325 (27 de março), foram feitos com eles já no quadro societário.

A juíza negou. Na decisão, afirmou que o MP não juntou “o correspondente ato de alteração contratual, certidão societária, ficha cadastral atualizada da Junta Comercial ou outro documento equivalente” capaz de comprovar a mudança e sua data, e que, sem isso, “não se revela suficiente a simples afirmação constante da representação”.

O documento que faltou aos promotores está, porém, no arquivo da própria SEFAZ: o quarto aditivo, com a assinatura de Salaro Neto como representante legal da empresa, foi juntado ao processo administrativo 11/009.929/2022 em 5 de maio de 2026.
Cadastros públicos de CNPJ consultados pelo Investigams também registram Mario Salaro Neto e a Real Participações e Gestão S/A como sócios da Infortech com entrada em 9 de outubro de 2025, a mesma data citada pelo MP.

Salero é sócio do secretário de governo e gestão estratégica, Rodrigo Perez Ramos, em uma pousada em Aquidauana, a Pousada Rancho da Barra Ltda. O empreendimento tem três anos e cadastro na Receita Federal como “Serviços de reservas e outros serviços de turismo”.

PGE, Fundect e uma dispensa

A relação da Infortech com o Estado é anterior ao contrato da Fazenda. Em 2019, venceu o lote 2 do Pregão 001/2019 da SEFAZ (R$ 5,8 milhões, renovado três vezes a R$ 7,07 milhões por ano).
Em agosto de 2020, recebeu por dispensa de licitação um contrato de R$ 1,2 milhão por cinco meses para licenciar o Sistema de Prestação de Contas integrado ao SPF, serviço que depois foi licitado e ficou com a mesma empresa, a R$ 3,2 milhão por ano, de 2021 a 2025.
Na PGE, o Contrato 003/2020, de R$ 1.104.000,00, assinado em dezembro de 2020 por Claudiano com a então procuradora-geral Fabíola Marquetti Sanches Rahim, cuida do Sistema de Dívida Ativa e da base PESSOA-MS.
Foi aditado cinco vezes, com reajustes anuais pelo ICTI/Ipea e acréscimos de 25% em 2022 e 2023; a renovação em vigor, até 10 de dezembro de 2026, vale R$ 1.714.911,36.
Na Fundect, a empresa foi contratada por inexigibilidade em fevereiro de 2025 (R$ 2.814.000,00) e renovada em fevereiro de 2026 (R$ 2.412.000,00) para implantar o “Módulo de Convênios” cedido pela SEFAZ.
Somados os órgãos, a Fazenda respondeu por R$ 124,5 milhões dos R$ 135,6 milhões pagos desde 2019; a PGE, por R$ 7,3 milhões; a Fundect, por R$ 3,9 milhões.

Quem é quem no grupo apontado pelo MP?

Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda. (CNPJ 23.147.735/0001-48)

Aberta em 2015 em Goiânia (GO), capital de R$ 500 mil, atividade principal registrada como consultoria em gestão empresarial. Maurício Aparecido Benites entrou no quadro em 2024, meses antes do contrato com a Santa Casa; a proposta à Santa Casa trazia no rodapé o endereço da EXBE em Campo Grande, e o pagamento foi direcionado a agência do Sicredi na Capital. Contratada por R$ 150 mil/mês em 29/10/2024; recebeu R$ 750 mil no primeiro semestre de 2025 e R$ 985.425 em março de 2026, segundo o MP.

EXBE Tecnologia e Serviços Ltda. (“Exbe Finance & Tech”) (CNPJ 47.700.845/0001-53)

Aberta em agosto de 2022 na Rua Eduardo Santos Pereira, 850, Monte Castelo; capital de R$ 1 milhão. Pertencia a Benites na época da cotação; passou a Fernanda de Freitas Diniz em 18/02/2026, o mesmo dia em que a presidente da Santa Casa respondeu à 49ª Promotoria do MPMS sobre o contrato. Benites assina como “CEO do Grupo Exbe – Redvalue” o código de conduta comum às duas marcas; a caminhonete que usa está no nome da EXBE.

Infortech Informática Ltda. (CNPJ 07.695.627/0001-53)

Aberta em 2005, capital de R$ 1,8 milhão, sede na Rua Doutor Michel Scaff, 105, Chácara Cachoeira, com filial em Três Lagoas. Proprietário formal até 2025: Claudiano Abreu de Jesus, que assina os contratos com SEFAZ e PGE. Desde 09/10/2025, segundo o MP e cadastros públicos: Mario Salaro Neto e Real Participação e Gestão S/A. Fornecedora do Estado desde pelo menos 2019; R$ 135,6 milhões recebidos até 2026.

Pessoas físicas ligadas ao grupo citadas nos saques: Valdenir Rogério Cardoso, empregado da EXBE com salário de R$ 2.400, sacou R$ 675.999,98 em 16 operações; Jean Carlos da Silva Macedo, diretor de tecnologia da Redvalue e empregado da EXBE, sacou R$ 49 mil. Ambos tiveram busca e apreensão.





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