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Ceuta protesta contra resposta de Madri à crise migratória – 03/09/2026 – Mundo


Moradores de Ceuta, exclave espanhol no Norte da África, foram às ruas na quarta-feira (2) para protestar contra a forma como Madri está lidando com uma crise migratória provocada após a entrada em massa de imigrantes vindos do Marrocos.

Milhares de pessoas marcharam pelas ruas da cidade, que tem cerca de 80 mil habitantes, em um protesto que coincidiu com o Dia de Ceuta, celebrado anualmente. Agitando bandeiras espanholas e soprando apitos, os manifestantes gritavam: “Ceuta não está à venda, Ceuta deve ser defendida”.

Um cartaz dizia: “SOS. Europa, salve-nos de nosso governo traidor”, enquanto alguns exigiam que as autoridades deveriam “expulsar os invasores” e outros pediam a renúncia do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. Manifestações também ocorreram em outras cidades espanholas, incluindo Madri, Barcelona e Bilbao.

Quase cinco semanas após a onda migratória, mais de 10 mil migrantes, incluindo menores de 18 anos desacompanhados, continuams em acampamentos improvisados ou espalhados pelas ruas e praias de Ceuta.

A situação provocou protestos quase diários de moradores, que criticam a resposta do governo espanhol. Parte dos manifestantes defende o retorno dos migrantes a seus países de origem ou sua transferência para outras regiões da Espanha.

“A resposta foi inadequada, tardia e, para completar, envolveu uma completa negligência do dever por parte do governo. Não podemos ser cidadãos de segunda classe, e nossa fronteira não pode ser deixada de lado”, disse o professor David Hernandez, 45 anos.

Em meio ao aumento de tensões nas últimas semanas, moradores atacaram e destruíram um acampamento improvisado na praia de El Trampolin. Também houve prisões de marroquinos acusados de atirar pedras e garrafas contra patrulhas do Exército.

IMPASSE POLÍTICO DIFICULTA SOLUÇÃO

Os protestos em toda a Espanha foram convocados pela federação de municípios FEMP, dominada pelo principal partido conservador de oposição, o Partido Popular (PP).

O governo de esquerda de Sánchez se afastou da iniciativa e acusou a direita de explorar politicamente a crise. “Isso não se trata de defender Ceuta e os ceutenses, mas de atacar o governo”, disse o ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres, à emissora de rádio RNE.

Um abaixo-assinado da iniciativa cidadã “Por Ceuta”, que pede respeito aos direitos humanos dos moradores e dos imigrantes, o retorno ordenado de pessoas sem direito de permanecer no território e o reforço da segurança, já recebeu quase 65 mil assinaturas. A iniciativa afirma não ter vínculo político.

Grupos de esquerda e sindicatos organizaram manifestações de contraponto em várias cidades, incluindo Madri, para condenar as “perseguições e ataques racistas e islamofóbicos” contra imigrantes em Ceuta.

As negociações entre os governos local e central sobre como lidar com a crise estão em um impasse. O PP, que governa a maioria das regiões, algumas delas em coalizão com o partido de ultradireita Vox, pede que todos os que ainda permanecem no território, incluindo os menores de idade, sejam deportados.

O governo ampliou de cerca de 500 para mais de 3.400 o número de vagas em centros de acolhimento temporário e enviou mais de 1.600 policiais para a região. Para grupos locais e líderes políticos, porém, as medidas ainda são insuficientes para garantir a segurança de moradores e imigrantes.

Espanha descarta ação planejada pelo Marrocos

A crise também alimenta uma disputa sobre o papel do Marrocos na entrada em massa de migrantes. O priemiê Sánchez afirmou nesta quinta que a Espanha não encontrou evidências de que as autoridades marroquinas tenham planejado ou orquestrado a travessia de mais de 70 mil pessoas para Ceuta em julho.

A declaração responde a um relatório da polícia espanhola, obtido pela Reuters, que levanta a possibilidade de que a entrada não tenha sido espontânea, mas parte de uma ação planejada para sobrecarregar o controle da fronteira.

Segundo Sánchez, nenhum órgão espanhol, europeu ou internacional apresentou ao governo evidências sólidas de uma operação coordenada pelo Marrocos.

O primeiro-ministro reconheceu, porém, que policiais marroquinos permitiram a passagem durante um período de dez horas em 30 de julho, quando o fluxo de pessoas atingiu o pico. As autoridades espanholas ainda não determinaram se isso ocorreu por omissão ou por incapacidade de conter a multidão.

O relatório policial aponta que as forças marroquinas foram mobilizadas em número menor que o habitual perto da fronteira e não fizeram uma tentativa séria de dispersar os migrantes. Alguns agentes teriam indicado a direção do ponto de travessia, enquanto outras pessoas pareciam orientar ou monitorar o fluxo.

O Marrocos nega ter permitido deliberadamente a passagem. Segundo Rabat, a travessia foi impulsionada por traficantes, por uma interpretação de uma decisão judicial espanhola e pelo uso das redes sociais para divulgar informações sobre uma entrada em massa.



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