“A expectativa era de que eu finalmente poderia ficar bem nos Estados Unidos, com residência legal e uma autorização de trabalho, mas acontece que estou aqui, deportado.”
Isidro Mendoza Jiménez fala à BBC News Mundo da Cidade do México.
Ele está na capital mexicana desde que foi expulso dos EUA, em abril —país ao qual chegou sem documentos, onde viveu por quase quatro décadas e onde nasceram seus seis filhos.
Natural do Estado de Oaxaca, ele é um dos ex-clientes de Alexandra Lozano Kennedy, a autointitulada “advogada dos milagres”, de quem soube pelas redes sociais e a quem acabou pagando US$ 19 mil (cerca de R$ 95,5 mil) na esperança de que ela pudesse regularizar sua situação.
Hoje, ele faz parte de uma das duas ações coletivas contra a ex-advogada, que está no centro do que especialistas descrevem como o maior escândalo da história recente dos EUA envolvendo uma suposta fraude na área de imigração —acusação que ela nega.
Obrigada a entregar sua licença para advogar no Estado de Washington e a fechar seus escritórios, estima-se que ela possa ter deixado até 54 mil clientes em um limbo jurídico.
Enquanto o processo contra ela avança, especialistas consultados pela BBC News Mundo alertam para um aumento das práticas fraudulentas no setor de serviços jurídicos de imigração nos EUA: desde pessoas que se passam por advogados (e não são) até consultores e notários que oferecem orientação sem ter licença para isso.
“Estamos diante de um cenário sem precedentes, com uma comunidade mais vulnerável e desesperada do que nunca diante da pressão da política migratória do governo de Donald Trump, e com golpistas cada vez mais sofisticados”, destaca Daniel Sharp, chefe do Escritório de Assuntos de Imigrantes do Condado de Los Angeles, na Califórnia.
Era 2023, e Mendoza Jiménez já havia passado meses vendo aqueles anúncios no Facebook.
“Resolvo casos supostamente impossíveis”, prometia Lozano em um deles, com seus característicos cabelos loiros e um vestido estampado com o Sagrado Coração de Jesus.
“Regularizar sua situação sem sair dos Estados Unidos é possível!”, garantia em outro, posando ao lado de uma imagem da Virgem de Guadalupe —uma iconografia com a qual, segundo as ações judiciais, ela apelava à fé de muitos membros da comunidade imigrante.
“Obrigada à Virgem pelas famílias unidas e pelas vidas transformadas.”
Aquilo era tudo o que Mendoza Jiménez sempre quis ouvir.
“Eu já tinha tentado com outros advogados”, conta à BBC News Mundo. Mas, como havia entrado nos Estados Unidos de forma irregular em 1989 e tinha um histórico que incluía dirigir sob efeito de álcool (DUI, na sigla em inglês) quando era jovem, “todos me disseram que eu não conseguiria regularizar minha situação”.
Animado pelas promessas que recebia pelas redes sociais e por recomendação de um amigo que já havia consultado Lozano, ele decidiu tentar a sorte com ela em outubro daquele ano.
“Ela me garantiu que, se terroristas e criminosos tinham conseguido regularizar sua situação, eu também conseguiria”, conta.
O escritório de advocacia de Lozano era especializado em solicitar vistos T para vítimas de tráfico de pessoas e em buscar a regularização da situação de seus clientes com base na Lei de Violência contra a Mulher (VAWA, na sigla em inglês), que, apesar do nome, permite que pessoas de qualquer gênero que tenham sofrido abuso por parte de parentes cidadãos americanos ou residentes permanentes solicitem residência legal nos EUA.
Mendoza Jiménez afirma que nunca a viu pessoalmente e acredita ter falado com ela por telefone apenas uma vez. O restante das tratativas foi feito com pessoas que trabalhavam para a advogada, segundo ele.
Após meses reunindo documentos para apresentar seu caso aos Serviços de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS, na sigla em inglês), ele compareceu, em 17 de março, a uma primeira entrevista em um escritório federal em Tukwila, no Estado de Washington, onde morava.
Dez dias depois, foi preso por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) quando voltava para casa após seu turno noturno de trabalho. Depois de passar pelo centro de detenção de Tacoma, foi finalmente deportado para o México em 1º de abril.
Ele afirma que foi na Cidade do México que finalmente conseguiu ter acesso ao seu processo e encontrou uma declaração com sua assinatura na qual constava que ele havia sido vítima de maus-tratos por parte de uma de suas filhas —algo que, segundo ele, é totalmente falso e que ele jamais assinou.
“Eu nunca soube disso. Os documentos que ela me pedia, eu levava, mas ela jamais me disse que era isso que colocaríamos [no pedido] e que era assim que eu me qualificaria [para receber os benefícios migratórios].”
O relato dele é semelhante ao de outros ex-clientes de Lozano.
Duas ações judiciais, que reúnem alguns deles e foram apresentadas a um tribunal federal de Seattle, no Estado de Washington, acusam a advogada de apresentar ao USCIS pedidos que continham declarações falsas ou exageradas e de criar um sistema para copiar as assinaturas dos clientes em documentos que eles nunca chegaram a ver.
As ações também afirmam que a maior parte do trabalho era realizada por funcionários que conheciam as leis de imigração, mas não tinham licença para advogar, e que o escritório recorreu a advogados sediados no México e na Colômbia para revisar processos e se comunicar com os clientes, fazendo-os acreditar que estavam nos Estados Unidos e que tinham autorização para exercer a advocacia no país.
Seu escritório, La Luz del Camino PLLC, com cinco escritórios principais e representação em 13 Estados, chegou a ter 750 funcionários em 2024.
“Ela montou praticamente uma operação em escala industrial”, disse à BBC News Mundo Vicente Omar Barraza, o advogado que lidera uma das ações civis, que reúne 34 autores.
Com esse suposto esquema fraudulento e o impulso de uma ampla campanha de promoção nas redes sociais, Lozano teria acumulado, em poucos anos, uma fortuna que investiria, diretamente ou por meio de entidades sob seu controle, em imóveis nos Estados Unidos e no exterior.
“Ela se aproveitou de clientes com pouquíssimas opções para fazer seus processos avançarem, em sua maioria mexicanos presos em um sistema que não é atualizado há 40 anos”, disse à BBC News Mundo Lucero Ortiz, advogada da Loyola Immigrant Justice Clinic (LIJC), um programa da Universidade Loyola Marymount, em Los Angeles, que deu apoio a cerca de 50 ex-clientes da advogada.
Lozano, por sua vez, rejeitou todas essas acusações.
A BBC News Mundo entrou em contato com Angelo Caldo, o advogado que a representa, para conhecer sua versão dos fatos, mas não obteve resposta.
No entanto, em declarações à agência de notícias AP, Caldo disse que os clientes de Lozano deveriam revisar os pedidos antes de assiná-los e responsabilizou-os por qualquer declaração falsa.
“A prática de Alexandra sempre foi lutar por seus clientes, buscar com determinação todas as opções legais disponíveis para eles e apoiar seus esforços para construir uma vida neste país”, afirmou.
Em maio, a acusada renunciou à Ordem dos Advogados do Estado de Washington em vez de enfrentar medidas disciplinares, o que a impediu permanentemente de exercer a advocacia naquele Estado.
Ela fechou seu escritório em 10 de junho e, no dia 18 daquele mês, foi suspensa pela Junta de Apelações de Imigração, ficando impedida de atuar perante o Departamento de Segurança Interna dos EUA (incluindo o USCIS) e os tribunais de imigração.
Defensores dos direitos dos imigrantes alertam que o caso pode acabar afetando vítimas legítimas que seriam elegíveis para benefícios migratórios.
No ano passado, o governo Trump começou a reformular os programas humanitários que Lozano supostamente explorou, endurecendo seus requisitos e alegando que o aumento no número de pedidos desde 2020 era um “sinal de fraude generalizada”.
Segundo dados publicados pelo USCIS, entre 2020 e 2025, o número de pedidos com base na Lei VAWA triplicou, passando de 15 mil para 53 mil por ano, enquanto os pedidos de visto T aumentaram 1.044%.
A BBC News Mundo pediu ao DHS comentários sobre as acusações contra Lozano, mas o órgão limitou-se a reenviar o comunicado do USCIS que explica que a advogada foi suspensa e traz instruções para ex-clientes que têm processos pendentes.
Por sua vez, o advogado Barraza teme que o caso acabe alimentando narrativas anti-imigração. “É algo que já estou vendo nas redes”, confidenciou à BBC News Mundo.
Ao mesmo tempo, ele lamenta que o caso possa acabar destruindo ainda mais a confiança da comunidade imigrante nos advogados. “As pessoas vão sair disso mais cínicas e mais prejudicadas. É uma tragédia.”
Se for comprovado que Lozano adotou práticas fraudulentas, este seria um caso sem precedentes pelo número de pessoas afetadas.
No entanto, as estatísticas disponíveis de agências estaduais e federais mostram que as fraudes em serviços jurídicos voltados à comunidade imigrante nos EUA são um fenômeno em crescimento.
A Comissão Federal de Comércio (FTC), agência do governo responsável pela proteção do consumidor e pela concorrência, recebeu, até agora neste ano, 1.012 denúncias de fraudes em serviços jurídicos de imigração.
No ano passado, foram registradas 1.625 denúncias, um aumento em relação às 1.315 do ano anterior e às 623 registradas em 2023, embora especialistas alertem que os números reais possam ser maiores, devido à relutância das vítimas em denunciar.
E, segundo dados publicados pelo Escritório Executivo de Revisão de Imigração, vinculado ao Departamento de Justiça, nos primeiros seis meses deste ano, 26 advogados de imigração enfrentaram medidas disciplinares em todo o país.
Enquanto isso, entre julho de 2025 e junho deste ano, foram apresentadas à Ordem dos Advogados do Estado da Califórnia 1.637 queixas relacionadas a pessoas que não são advogadas, embora o órgão tenha esclarecido à BBC News Mundo que nem todas estão relacionadas a casos de imigração. “O número vem aumentando ano após ano desde o ano fiscal de 2022.”
Os especialistas consultados concordam em apontar o início da tendência de alta durante a pandemia.
“Foi no contexto da covid que mais pessoas começaram a procurar serviços jurídicos na internet e, com isso, começamos a observar um claro aumento dos golpes”, disse à BBC News Mundo Daniel Sharp, que está à frente do Escritório de Assuntos dos Imigrantes desde 2020.
Embora o fenômeno venha se desenvolvendo há alguns anos, Sharp, assim como outros entrevistados, reconhece que, desde o retorno de Trump à Presidência, em janeiro de 2025, com a promessa de realizar “a maior deportação da história do país”, a situação se tornou sem precedentes.
“A comunidade está mais vulnerável do que nunca, devido às políticas e às mudanças radicais no marco legal e na forma como as leis de imigração estão sendo implementadas”, explica. Soma-se a isso o fato de que “as organizações sem fins lucrativos estão sobrecarregadas, sem capacidade para representar todos os casos”.
Ele também destaca que os agentes fraudulentos se aproveitam de momentos de maior desespero.
“Em muitos casos, as pessoas começam a procurar serviços jurídicos depois que um familiar é detido. Elas pesquisam nas redes sociais, sobretudo no Facebook, onde são promovidos advogados de verdade, mas também impostores”, alerta.
Marissa Montes, diretora da Loyola Immigrant Justice Clinic (LIJC), vivenciou pessoalmente o fenômeno da falsificação de identidade.
“Recebi um e-mail de uma jovem que me disse: ‘Minha mãe garante que você é a advogada dela, mas comecei a investigar e acho que alguém está usando sua identidade para enganar pessoas imigrantes'”, contou ela à BBC News Mundo.
“Isso me pegou totalmente de surpresa e fiquei assustada”, diz. Mas, longe de ficar de braços cruzados, ela começou a investigar.
Foi assim que descobriu que a impostora usava seu nome e número de licença para se promover no Facebook e exibia seu perfil na Ordem dos Advogados do Estado da Califórnia como uma suposta prova de sua legitimidade. Aos interessados, ela explicava que já não trabalhava para a LIJC, mas atuava como advogada particular em Utah, e começava a se comunicar com eles pelo WhatsApp.
Montes tentou denunciar a fraude, mas esbarrou em um obstáculo.
A Ordem dos Advogados de Utah sugeriu que ela entrasse em contato com as autoridades locais, mas a polícia de Los Angeles não tinha jurisdição, já que a golpista dizia estar em Utah e a vítima morava no Colorado.
Ela também denunciou o caso à equipe de combate a fraudes do banco no qual a impostora mantinha uma conta ativa, mas foi informada de que não poderiam fazer nada sem um boletim de ocorrência.
“Foi realmente frustrante perceber que não havia uma maneira de proteger a comunidade imigrante nem a mim mesma”, diz ela, alertando que o perigo aumenta com o uso da inteligência artificial.
Outra modalidade de práticas irregulares sobre a qual os especialistas alertam é a chamada “fraude notarial”.
Ela tem origem na forma como, há anos, pessoas que oferecem serviços de imigração se aproveitam da confusão que o termo “notário” gera na comunidade imigrante.
Enquanto em muitos países da América Latina os notários precisam ter formação e licença em Direito para exercer a profissão, nos Estados Unidos é possível obter uma licença para realizar atos notariais sem ser advogado.
“São pessoas que oferecem serviços jurídicos de imigração sem estarem autorizadas a fazê-lo —desde consultores e agências de seguros ou viagens até pastores”, explicou à BBC News Mundo Kathleen Rivas, advogada do Projeto de Direitos dos Imigrantes da Public Counsel, organização que acaba de publicar um guia voltado ao combate a essas fraudes.
Muitas vezes, elas cobram valores exorbitantes em troca de um trabalho de baixa qualidade, “e as consequências para as vítimas podem ser catastróficas, incluindo detenção, deportação ou desqualificação permanente para obter um status migratório legal”, alerta.
Marta, que pediu para que seu sobrenome não fosse divulgado, é uma dessas vítimas.
Natural do México, ela nunca teria suspeitado que o homem que lhe garantiu que conseguiria obter residência permanente em três anos e lhe cobrou US$ 14 mil pelos trâmites não era advogado.
A verdade começou a vir à tona depois que ela foi abordada por um agente do ICE, em 2023, em um aeroporto de Dakota do Sul. “Você sabe que podemos deportá-la?”, disseram a ela, para sua surpresa.
Quando pediu ao suposto advogado que apresentasse um pedido de suspensão da deportação, ele respondeu que aquilo não estava incluído no contrato. “Por sorte, consegui outra advogada que conseguiu impedir minha deportação, embora apenas por um ano”, contou à BBC News Mundo.
Em abril de 2025, ela teve sua audiência final perante o ICE, na qual a agência avaliou seu caso para decidir se sua remoção seria levada adiante. Ela descreve o funcionário que a atendeu como “um anjo”, que recomendou que solicitasse um perdão migratório.
Com esse objetivo, ela procurou novamente o suposto advogado, que a encaminhou para uma coleta de dados biométricos, onde suas impressões digitais seriam registradas. “Achei que era um sinal de que meu processo [para obter a residência permanente] estava avançando”, conta. Ela se convenceu disso quando recebeu uma autorização de trabalho.
Mais tarde, descobriria que os procedimentos nos quais estava envolvida eram, na verdade, para solicitar asilo político. Quando confrontou o advogado, ela diz que ele respondeu: “O que mais você quer? Então volte para o seu país”.
“Foi aí que percebi que ele não faria nada por mim, que tudo não passava de uma farsa”, lamenta.
Algo que ela confirmou quando, após uma busca minuciosa na internet, descobriu que aquele suposto advogado era, na verdade, um notário.
Consultados sobre recomendações para evitar cair nesse e em outros tipos de golpes relacionados à imigração, os especialistas concordam em vários pontos.
O primeiro é verificar a identidade de quem oferece o serviço jurídico, comparando seus dados com as informações da Ordem dos Advogados correspondente.
Eles também recomendam se reunir pessoalmente com o profissional, buscar uma segunda e até uma terceira opinião, exigir a revisão de cada um dos documentos e, acima de tudo, não confiar em quem promete soluções imediatas ou garante resultados favoráveis.
“Nenhum processo de imigração é rápido”, alerta Rivas, da Public Counsel.
“E alguém que garante que conseguirá regularizar sua situação migratória é um enorme sinal de alerta”, afirma, por sua vez, Ortiz, da Loyola Immigrant Justice Clinic.
Um sinal de alerta que nem Marta nem Isidro conseguiram perceber a tempo —e pelo qual pagaram caro.
“Meu caso continua em aberto. Tenho uma audiência relacionada ao processo de asilo pendente e nunca estive em um tribunal. É algo que realmente me assusta”, explica Marta, que agora recebe orientação da Public Counsel.
“Espero que me deixem voltar aos Estados Unidos”, diz Isidro, enquanto acompanha, da Cidade do México, o andamento de sua ação judicial


