Pelo menos 1 em cada 4 ex-jogadores da NFL (National Football League), que morreram entre 2016 e 2021, tinham a doença CTE (Encefalopatia Traumática Crônica, em inglês), de acordo com um estudo publicado nesta terça-feira (25) no periódico BMJ.
O estudo é “uma das estimativas mais informativas até o momento sobre a incidência de CTE entre ex-jogadores da NFL“, afirmou um editorial publicado juntamente com a pesquisa.
- A encefalopatia traumática crônica é uma doença neurodegenerativa associada a repetidos golpes na cabeça. O diagnóstico só pode ser feito após a morte, embora os sintomas possam incluir perda de memória, problemas de controle de impulsos, ansiedade, depressão e problemas de raiva. É mais comum em pessoas que praticam esportes como futebol americano, hóquei e futebol, mas também foi detectada no cérebro de soldados feridos em explosões e em algumas pessoas que sofreram violência doméstica. No cérebro, a doença é caracterizada por um acúmulo anormal da proteína tau.
Uma análise recente e independente já havia detectado a doença em 99% dos ex-jogadores da Liga de Futebol Americano dos EUA que doaram seus cérebros para pesquisa. No entanto, uma limitação significativa desse estudo foi o fato de ter sido realizado em uma população potencialmente enviesada, já que seus cérebros foram doados por familiares que podem ter notado os sintomas enquanto seus familiares ainda estavam vivos.
Para este novo estudo, pesquisadores do Mass General Brigham, da Universidade de Boston e da Fundação Concussão & CTE — muitos dos quais já haviam participado de pesquisas anteriores sobre CTE — buscaram superar essa limitação analisando o número total de mortes na NFL entre 2008 e 2021.
Os pesquisadores utilizaram dados de certidões de óbito e os compararam ao número de doadores de cérebro com diagnóstico confirmado de CTE. Além disso, os pesquisadores restringiram o período analisado aos anos de 2016 e 2021, quando o maior número de doações de cérebro foi recebido.
Dos 878 ex-jogadores que faleceram nesse período, 235 doaram seus cérebros para pesquisa. Dentre eles, 215 foram diagnosticados com CTE (Encefalopatia Traumática Crônica). Muitas das doações de cérebro analisadas foram feitas em bancos de cérebros da Universidade de Boston e da Universidade da Califórnia, em São Francisco.
Um porta-voz da NFL disse: “A NFL se esforça continuamente para tornar o futebol americano mais seguro, inclusive implementando estratégias para reduzir concussões e impactos na cabeça”.
“A NFL continua empenhada em garantir que a comunidade da NFL tenha acesso a um conjunto robusto – e crescente – de recursos para melhorar seu bem-estar físico e mental. Incentivamos os ex-jogadores a utilizarem esses recursos para identificar e buscar tratamento quando estiverem preocupados com sua saúde.”
O autor principal do estudo, doutor Daniel Daneshvar, chefe do departamento de medicina física e reabilitação do Mass General Brigham e professor associado da Harvard Medical School, afirmou que lesões cerebrais traumáticas repetidas são um fator conhecido no aumento das taxas de doenças neurodegenerativas.
“Da mesma forma, nós e outros demonstramos que, especificamente entre os jogadores da NFL, a taxa de mortalidade por doenças neurodegenerativas é cerca de quatro vezes maior do que na população em geral”, acrescentou.
O estudo também descobriu que a demência era comum entre os doadores de cérebro, e os pesquisadores recomendam medidas de prevenção que visem reduzir os impactos repetitivos na cabeça em todos os níveis do esporte.
“A maior parte dos impactos na cabeça que esses ex-jogadores da NFL sofreram não ocorreu no nível da NFL. Ocorreram no nível universitário… e no nível do ensino médio e, em muitos casos, no nível juvenil. E todos esses impactos cumulativos na cabeça resultaram em um risco aumentado”, disse Daneshvar.
O Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) da NFL de 2011 limitou o número de treinos com contato físico durante a temporada. O ACT atual foi ratificado em 2020 e vigora até março de 2031.
Cinco anos depois, a Ivy League proibiu o contato físico total durante os treinos.
Em 2016, a Suprema Corte abriu caminho para que a NFL resolvesse os processos relacionados a concussões movidos por milhares de jogadores aposentados.
“Se as mudanças implementadas na NFL, incluindo a redução do contato físico nos treinos esportivos para menos de um por semana, fossem replicadas nos níveis universitário, do ensino médio e juvenil, os atletas se beneficiariam”, disse Daneshvar, que incentivou atletas atuais e antigos que apresentem sintomas cognitivos a procurarem avaliação de um especialista em doenças neurodegenerativas.
“Sabemos que quase 70% dos impactos na cabeça ocorrem nos treinos. Portanto, sem alterar um único minuto do tempo de jogo em nenhum desses níveis, podemos reduzir substancialmente o impacto cumulativo na cabeça que esses indivíduos sofrem ao longo de suas vidas.”
*Com informações de Jill Martin e Reuters


