A prática de atividade física de lazer em São Paulo é marcada por desigualdades sociais, segundo dados do estudo ISA-Capital, que acompanhou 978 pessoas entre 2014 e 2024. A pesquisa indica que fatores como gênero, raça e escolaridade estão associados à possibilidade de os moradores da capital praticarem exercícios por escolha e lazer.
Os pesquisadores analisaram os participantes em três períodos: 2014/15, 2020/21, durante a pandemia de Covid-19, e 2023/24. Para avaliar o impacto conjunto das vulnerabilidades sociais, o estudo utilizou um índice que considera características como gênero, raça ou cor e escolaridade.
Diferença aumenta entre os grupos
Segundo os dados apresentados no estudo, em 2014/15, 51% das pessoas classificadas no grupo de menor vulnerabilidade praticavam atividade física no lazer. Entre aquelas no grupo de maior vulnerabilidade, o índice era de 29%.
Durante a pandemia, em 2020/21, a diferença diminuiu: 57% do grupo de menor vulnerabilidade praticava atividades físicas no lazer, contra 42% do grupo de maior vulnerabilidade.
Com a retomada das atividades presenciais, a distância voltou a crescer. Em 2023/24, a prática chegou a 65% entre os participantes classificados no grupo de menor vulnerabilidade, enquanto ficou em 39% entre os mais vulneráveis.
Vulnerabilidade acumulada
O índice utilizado pelos pesquisadores considera três dimensões sociais.
Mulheres recebem um ponto na escala de vulnerabilidade, enquanto pessoas pretas, pardas, indígenas ou amarelas também recebem um ponto. Já indivíduos com ensino fundamental incompleto ou menos recebem dois pontos.
Dessa forma, o grupo de menor vulnerabilidade é formado por homens brancos com ensino superior completo. No extremo oposto estão mulheres não brancas com baixa escolaridade.
A análise busca identificar como diferentes fatores sociais podem se combinar e influenciar o acesso à atividade física de lazer.
Caminhar por necessidade é diferente de praticar exercício
O estudo também analisou a atividade física relacionada ao transporte, como caminhar até o trabalho ou até pontos de transporte público.
Nesse caso, não foi identificada diferença estatisticamente significativa entre os grupos sociais analisados. Os pesquisadores, porém, destacam que o significado desse deslocamento pode ser diferente conforme a condição socioeconômica.
Para moradores de regiões periféricas, por exemplo, caminhar pode estar relacionado à necessidade de deslocamento e à ausência de alternativas de transporte, enquanto pessoas de maior renda podem praticar atividades físicas por lazer ou escolha.
Barreiras ao exercício
Os resultados apontam para fatores que podem dificultar a prática de exercícios entre grupos socialmente vulneráveis, como a distância dos equipamentos esportivos, a falta de parques e ciclovias, condições inadequadas de calçadas e questões relacionadas à segurança.
A sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidados também pode reduzir o tempo disponível para atividades de lazer, especialmente entre as mulheres.
Nesse contexto, os pesquisadores defendem que políticas públicas voltadas ao aumento da atividade física considerem as desigualdades sociais e territoriais da cidade.
A proposta é adotar o chamado universalismo proporcional, com políticas destinadas à população em geral, mas com maior intensidade de ações e investimentos nas regiões e grupos que enfrentam maior vulnerabilidade.
