De contratos de quase R$ 70 milhões investigados em 2023 ao escândalo do “teste da orelhinha” nesta quinta-feira, operações do GAECO e Gecoc alcançaram secretários-adjuntos, dirigentes, assessores e servidores estaduais. São casos diferentes e ninguém pode ser condenado por antecipação, mas a frequência já permite uma pergunta: como anda o filtro dentro do próprio Governo?
Os corredores do Governo de Mato Grosso do Sul parecem ter se tornado endereço conhecido do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO) e do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc). Desde o primeiro ano da gestão de Eduardo Riedel, operações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul alcançaram pessoas que ocupavam cargos importantes ou pertenciam aos quadros do Estado, passando por Educação, Casa Civil, Administração, Saúde, Agesul, Polícia Civil e, agora, Polícia Científica.
É preciso colocar cada coisa em seu devido lugar. São investigações diferentes, envolvendo fatos, períodos e pessoas distintas. Prisão preventiva não significa condenação, denúncia não é sentença e todo investigado tem direito à defesa. Da mesma forma, não existe fundamento para atribuir automaticamente ao governador eventual conduta individual de servidor ou nomeado. Feita a ressalva necessária, sobra uma questão política e administrativa que não pode ser escondida atrás dela: quando operações começam a bater repetidamente em portas importantes da estrutura estadual, os critérios de nomeação, fiscalização e controle interno também passam a merecer atenção.
E essa história não começou em 2026.
Em 29 de novembro de 2023, ainda no primeiro ano do Governo Riedel, o GAECO e o Gecoc deflagraram a Operação Turn Off, que investigava suspeitas de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, fraude em licitações e contratos públicos e lavagem de dinheiro.
Segundo o MPMS, a investigação alcançava contratos que ultrapassavam R$ 68 milhões, envolvendo, entre outros objetos, aparelhos de ar-condicionado destinados à Secretaria de Estado de Educação e equipamentos, produtos e serviços relacionados à área da Saúde.
Foram cumpridos 8 mandados de prisão preventiva e 35 mandados de busca e apreensão.
Entre os presos estava Edio Antônio Resende de Castro, que ocupava o cargo de secretário-adjunto de Estado de Educação. Não era um funcionário perdido no organograma: era o número dois de uma das maiores secretarias do Governo.
A operação também chegou à Casa Civil. Flávio da Costa Brito Neto, então secretário-adjunto da pasta, foi alvo de busca e apreensão e posteriormente afastado. O Governo reagiu com exonerações que alcançaram ainda servidores vinculados às áreas de Administração, Saúde e Educação.
A providência era necessária. A ironia é que o controle administrativo parece funcionar com uma velocidade impressionante depois que o GAECO toca a campainha.
A Turn Off continuou produzindo desdobramentos. Na segunda fase, em junho de 2024, o Ministério Público detalhou ações penais relacionadas a contratos de R$ 6,52 milhões na aquisição de produtos médico-hospitalares pelo Hospital Regional; R$ 13 milhões na compra de aparelhos de ar-condicionado pela Educação; R$ 22,99 milhões em materiais de ostomia destinados à Apae por meio de convênio com a Saúde; e R$ 12,33 milhões referentes à contratação para emissão de laudos médicos.
Somados, esses quatro conjuntos alcançam aproximadamente R$ 54,85 milhões. O MPMS informou ainda ter identificado indícios de ocultação de patrimônio proveniente das atividades investigadas em valores superiores a R$ 10 milhões.
Portanto, já em 2023 e 2024, Educação, Saúde, Administração e Casa Civil haviam entrado no radar das investigações.
O calendário avançou e, em 12 de maio de 2026, chegou a Operação Buraco Sem Fim.
Entre os presos estava Rudi Fiorese, que naquele momento ocupava a presidência da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos, a Agesul, uma das estruturas mais importantes do Governo para execução de obras e investimentos.
Aqui existe uma distinção fundamental: os fatos investigados estão relacionados principalmente ao período em que Fiorese comandava a infraestrutura da Prefeitura de Campo Grande, e não à sua atuação na Agesul. A investigação envolve contratos e aditivos de manutenção viária que ultrapassariam R$ 113 milhões.
O problema político está na escolha.
Quando foi preso, Fiorese havia sido nomeado pelo Governo Riedel para comandar justamente uma agência que administra obras e contratos milionários do Estado. E havia um detalhe conhecido antes dessa nomeação: ele já havia sido alvo da Operação Cascalhos de Areia, do GAECO, em 2023.
Depois da prisão na Buraco Sem Fim, o Governo o exonerou.
Nada disso prova culpa. Mas permite uma pergunta bastante simples: quais filtros de integridade são utilizados antes de entregar cargos estratégicos a determinados nomes?
Em 7 de julho de 2026, menos de dois meses depois, o GAECO voltou às ruas com a Operação Gutenberg. Foram 16 mandados de prisão preventiva e 43 de busca e apreensão em uma investigação que, segundo o Ministério Público, apura esquema superior a R$ 27 milhões envolvendo principalmente a comercialização de livros paradidáticos para prefeituras.
Só que os livros acabaram abrindo uma página muito mais delicada.
Entre os presos estava Ed Carlo Britto Burgatt, então coordenador estadual de Regulação Assistencial da Secretaria de Estado de Saúde.
A função merece atenção porque a regulação está diretamente ligada ao acesso da população a atendimentos e procedimentos do SUS. A investigação passou a apurar indícios de utilização dessa estrutura para facilitar ou dificultar exames, cirurgias e vagas hospitalares conforme interesses relacionados ao esquema investigado.
Posteriormente, Ed Carlo apareceu entre os 17 denunciados pelo GAECO, com a denúncia recebida pela Justiça.
Nesse ponto, o sarcasmo encontra limite. Para uma pessoa esperando meses por cirurgia, exame ou vaga hospitalar, acesso ao SUS não pode ser favor, moeda política nem instrumento de negociação.
Mas a Gutenberg ainda tinha outros endereços estaduais.
Também foi preso Felipe Paroschi Jafar, então ocupante de cargo comissionado de assessor II da Agesul, posteriormente exonerado.
A coincidência ficou desconfortável: em maio, o presidente da Agesul havia sido preso em uma operação; em julho, outro ocupante de cargo comissionado da mesma agência aparecia preso em investigação diferente.
Para uma agência responsável por obras, o tráfego do GAECO ficou intenso demais.
A Gutenberg também alcançou Inácio da Silva Espíndola, ex-vereador de Laguna Carapã que ocupava cargo de assessor especial da Casa Civil do Governo do Estado. Ele posteriormente apareceu entre os denunciados pelo GAECO e deixou o cargo. Segundo informações divulgadas sobre a investigação, são apurados pagamentos que somariam aproximadamente R$ 53,5 mil, relacionados à suposta atuação na aproximação entre integrantes do esquema e agentes públicos.
Novamente: denúncia não é condenação. Mas um assessor especial da Casa Civil aparecer entre denunciados numa investigação milionária não é exatamente informação para ser tratada como nota de rodapé.
Outro nome da Gutenberg foi Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, o Júnior Vasconcelos, ex-prefeito de Fátima do Sul e servidor efetivo da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.
Neste caso, é necessário não forçar a barra: Júnior estava cedido e trabalhava no gabinete do deputado estadual Jamilson Name, portanto não deve ser apresentado como integrante político da equipe de Eduardo Riedel. Entretanto, continuava pertencendo ao quadro estadual e, após a prisão, a Polícia Civil determinou seu afastamento compulsório, recolhimento da arma e carteira funcional e suspensão do acesso aos sistemas policiais.
Quando parecia que 2026 já havia fornecido operações suficientes, chegou 13 de agosto.
Nesta quinta-feira, o MPMS deflagrou a segunda fase da Operação Auditus, investigação que começou a partir de suspeitas envolvendo serviços médicos, inclusive exames de triagem auditiva neonatal, o popular “teste da orelhinha”.
Foram expedidos 5 mandados de prisão preventiva e 12 de busca e apreensão, cumpridos em Nioaque, Bonito, Jardim, Bela Vista e Guia Lopes da Laguna.
Segundo o Ministério Público, a investigação encontrou indícios de direcionamento de contratações, pagamento por serviços médicos que não teriam sido realizados, falsificação de documentos, desvio de recursos públicos e pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos.
Os números divulgados oficialmente chamam atenção. Entre 2022 e 2025, os gastos investigados cresceram 1.713%. O MPMS aponta ainda que 83% dos exames e consultas pagos pelo Município de Nioaque teriam sido simulados, enquanto o prejuízo investigado já supera R$ 4 milhões.
A apuração também encontrou indícios de tentativa de expansão do esquema para outros municípios.
Entre os presos está o médico Robson Roosevelt Ferreira Aguilar, proprietário da Policlínica Rota Bioceânica, antiga Prontomed, em Jardim. Robson também é médico-legista da Polícia Científica de Mato Grosso do Sul e foi afastado de suas funções após a prisão preventiva.
A própria Polícia Científica esclareceu que os fatos investigados não possuem relação com a atividade pericial desempenhada pelo servidor dentro da instituição. A ressalva é importante: não existe fundamento para transformar a investigação individual em acusação contra a Polícia Científica.
Também é necessário cuidado com Bonito. O município aparece oficialmente entre as cidades onde foram cumpridas medidas da Auditus nesta quinta-feira, mas, até as informações publicamente disponíveis neste momento, não está confirmado que uma das cinco prisões tenha ocorrido em Bonito. O que está confirmado é que houve cumprimento de mandados no município.
Feitas todas essas distinções, sobra uma cronologia difícil de ignorar.
Desde 2023, a Turn Off alcançou o secretário-adjunto da Educação, o secretário-adjunto da Casa Civil e servidores ligados a outras áreas estaduais. Em 2026, a Buraco Sem Fim encontrou Rudi Fiorese na presidência da Agesul; a Gutenberg alcançou o coordenador da Regulação da Saúde, um assessor da Agesul, um assessor especial da Casa Civil e um servidor efetivo da Polícia Civil; e agora a Auditus inclui entre os presos um médico-legista da Polícia Científica.
Não são pessoas acusadas do mesmo crime. Não pertencem ao mesmo grupo e nem todas integravam politicamente a equipe de Riedel. Alguns eram comissionados, outros ocupavam funções de direção e outros são servidores efetivos.
Misturar tudo seria desinformação.
Ignorar tudo também seria.
O governador Eduardo Riedel não responde automaticamente pela eventual conduta criminosa de cada servidor ou nomeado. Mas seu governo responde politicamente pelos critérios de escolha dos cargos de confiança, pelos mecanismos de integridade, pela fiscalização interna e pela transparência das providências adotadas quando problemas aparecem.
E talvez essa seja a pergunta mais importante desta história: o Governo está descobrindo seus problemas por meio dos próprios controles ou somente depois que o Ministério Público chega com mandado na mão?
Porque a sequência já atravessou Educação, Administração, Saúde, Casa Civil, Agesul e Segurança Pública.
Começou com ar-condicionado e produtos hospitalares, passou por contratos de tapa-buraco, entrou nos livros paradidáticos e na regulação da Saúde e agora chegou ao teste da orelhinha.
É um roteiro variado demais para uma administração que gosta de falar em controle.
O Governo pode exonerar depois, afastar depois e publicar no Diário Oficial depois.
Mas talvez esteja na hora de explicar o que está sendo feito antes.
Porque, de 2023 para cá, uma coisa parece funcionar com bastante regularidade nos corredores do Governo Riedel:
o GAECO continua encontrando a porta.
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