Até há pouco tempo, apenas uma história ligava minha família ao nazismo. Nos anos 1940, quando Getúlio Vargas impunha uma campanha de nacionalização no país, foram proibidas as línguas de alguns colonos, como a dos alemães. Essa política se agravou quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, e as comunicações no idioma de Hitler levantavam suspeitas de concordância com as ideias dele.
Meu bisavô Wilhelm, que já vivia no Sul do Brasil desde 1924, sintonizava de forma clandestina as rádios teutônicas no porão de casa. Ele queria ouvir notícias do conflito. Mas parentes dizem que foi um “Auf Wiedersehen” no fim do expediente na fábrica de móveis que fez com que fosse levado à delegacia. Às lágrimas, minha bisavó insistiu que não podia cuidar dos 12 filhos sozinha, e o episódio não durou muito.
Uma história boba, lembrada vez ou outra nos nossos grandes encontros. Grandes porque meu tataravô também teve 12 filhos. A moda pegou, a família cresceu de forma quase exponencial e, surpreendentemente, parentes dos dois países são bem conectados até hoje. Há dois anos, quando comemoramos os cem anos da imigração, éramos quase 120 na festa e carregávamos crachás para sinalizar aos que ainda não conhecíamos de que galho vínhamos.
Grande parte da família cresceu numa fazenda arrendada de um conde em Darfeld, uma minúscula vila no noroeste da Alemanha. O trabalho na roça era duro, e a vida latino-americana pareceu uma boa aposta em meio à quebrada economia do entreguerras.
Quando pesquisei meu sobrenome alemão, Weihermann, nos documentos do partido nazista e vi Darfeld numa das fichas, sabia que o fruto não estava longe do pé. Recentemente, os Estados Unidos liberaram as cópias digitais que tinham desses arquivos, e o semanário alemão Die Zeit criou uma ferramenta para facilitar a pesquisa.
Senti um frio na espinha, um certo choque, quase como se eu tivesse por um breve momento me tornado cúmplice do horror do Terceiro Reich. Era Hubert, um dos irmãos do meu bisavô. Mas a sensação também foi de estranhamento, já que o tom da família é de festa e bom humor.
“Não me surpreende”, disse um sobrinho de Hubert, primo do meu avô, quando comecei a perguntar a parentes o que sabiam sobre ele. “Ele nunca esteve realmente integrado à família.” As informações são escassas. Trabalhava na construção civil, ingressou no NSDAP, o partido nazista, no ano de 1937. Teve um filho natimorto e uma filha, essa falecida em 2007, que aparentemente não deixou descendentes.
Pode-se especular. Sabemos que Hubert lutou durante toda a Primeira Guerra. É possível que a capitulação tenha deixado ressentimento? Trabalhadores de colarinho azul eram bem representados no partido nazista. Teria ele se radicalizado com colegas de trabalho?
A data de ingresso sugere que ele não era um dos ainda poucos extremistas que se juntavam ao NSDAP antes de 1933, quando Hitler chegou ao poder. Depois disso, milhares de oportunistas se juntaram ao regime. A sigla tentou contê-los ao suspender novas admissões até 1937.
Procurei seus documentos de desnazificação. Esses questionários com 131 páginas foram impostos pelos governos de ocupação da Alemanha após a guerra a milhares de pessoas para julgar o grau de envolvimento delas com o Terceiro Reich.
Muitos precisavam preenchê-los para reaver o emprego na administração pública. As respostas eram analisadas por comissões regionais ou pelo governo militar, que podiam classificar os remetentes como criminosos, delinquentes graves, delinquentes menores, seguidores e inocentes.
Não havia nada do meu tio-bisavô por lá, mas a pasta de um Weihermann carregava dezenas de páginas. Na minha imensa árvore genealógica, ele aparece como um primo de terceiro grau. Ewald, um engenheiro de inspeção, havia sido demitido de uma filial da TÜV, empresa que faz testes de segurança para o Estado alemão. Isso porque ele havia se filiado ao partido e ainda atuado por alguns meses como blockleiter, ou blockwart, numa expressão mais genérica, para o partido nazista.
Eram assim chamados os líderes de quarteirão do NSDAP. Funcionavam como o primeiro elo entre a população e o partido e cuidavam de seis ou sete prédios maiores, com 40 ou até 60 domicílios. Tinham que recolher taxas, distribuir propaganda nazista e deviam informar aos superiores sobre quem se comportasse fora do que era esperado pelo nacional-socialismo.
Muitos dos blockleiter eram nazistas convictos. Apelidados pejorativamente de “Treppenterrier”, ou “Terrier de escada”, em referência à raça canina, eram fiscais impetuosos e maliciosos sempre em alerta para espionar e delatar seus vizinhos.
Em dias de comemoração, quem não participasse ativamente poderia ser facilmente abordado por um vizinho radical nessa função, exemplifica Detlef Schmiechen-Ackermann, historiador e professor da Universidade Leibniz de Hannover, que desenvolveu extensa pesquisa sobre a função.
“Um blockleiter logo diria: ‘Você não colocou sua bandeira na janela. Você não acredita no Estado nazista? Você não entende nossas ideias?’.”
Em relatórios, blockleiters passavam sistematicamente a seus superiores informações importantes e detalhadas de quem vivia em cada bairro, listando, por exemplo, propriedades e apartamentos de judeus, repassando-as a organizações como a Gestapo e a SS.
Segundo os números do próprio partido, havia mais de 200 mil desses zeladores na Alemanha em 1935. Não que o posto fosse muito desejado. A falta de remuneração e o baixo prestígio social faziam com que a sigla estivesse sempre em busca de alguém que havia deixado a função.
Ainda assim, eles constituíram um elemento central na estrutura de controle social do regime nazista, diz Schmiechen-Ackermann. “Eles garantiam vigilância e repressão em todo o país, em cada vila, em cada parte da cidade. Essa era a importância desses funcionários.”
Meu primo Ewald diz que praticamente não teve escolha. Estava desempregado desde julho de 1932 e afirma que nutria a esperança de ter uma nova oportunidade com a “melhora econômica prometida a todos após 1933”.
“No entanto, as chances eram quase nulas se a pessoa não pertencesse ao NSDAP. Diante da situação política da época, não vi objeções em solicitar minha admissão ao partido”, relata ele nos documentos de desnazificação. Algum tempo depois da filiação, o partido o recrutou como blockleiter.
Mas ele não durou muito. Depois de “obter certa percepção sobre a natureza e o comportamento do NSDAP”, Ewald tentou livrar-se da função, o que o levou a discutir com seus superiores. Como prova da briga, ele anexou ao questionário cartas dos nazistas, que o expulsaram do cargo por ter ofendido dois partidários. “Queira considerar como um ato de extrema benevolência de nossa parte o fato de abstermo-nos de tomar outras medidas contra o senhor. Heil Hitler!”, escreveu o líder do grupo local.
Há ainda cartas de vizinhos e até do padre da paróquia local, que diziam que Ewald nunca se portara como um nacional-socialista. O governo britânico o enquadrou na categoria 4, como um seguidor. Ele pôde reaver o emprego e não teve bens confiscados. Devia se apresentar regularmente à polícia e portar sempre um livro de registro.
Não acho que seja simples avaliar qual a responsabilidade dele sob Hitler. Schmiechen-Ackermann me diz que encontrou em sua pesquisa blockleiters que, de fato, não faziam nada.
O trabalho dos comitês foi criticado por tratar muitos casos com leniência e sentimentalismo, permitindo que figuras proeminentes do nacional-socialismo recuperassem seus empregos. As cartas de conhecidos, apelidadas de “atestados sabão em pó”, muitas vezes eram escritas para lavar a imagem de criminosos.
É impossível saber se a história de Ewald é verdadeira, afinal, ninguém escrevia nesses documentos que era um nazista de coração. O mais provável é que ele e meu tio-bisavô tenham sido, sim, oportunistas que não se deram muito bem com isso. São a personificação da maioria dos membros do partido que se juntavam ao NSDAP atrás de vantagens, mas também sustentaram o regime.
Os regimes totalitários podem criar paradoxos. Há escolha para um cidadão comum diante de um regime que diz que nunca cairá? No processo de desnazificação, a maioria foi perdoada como “companheira de viagem” do regime. Mas, em 1933, a repressão política e o antissemitismo já existiam, e me parece até cômico alguém dizer que desconhecia a natureza do partido.
Sinto que o fim da história de Ewald desmonta seu próprio argumento de que as chances de conseguir um emprego seriam quase nulas se ele não fosse da sigla. Poucos meses depois, fez um curso de especialização e logo virou vice-gerente de uma tradicional fabricante de aço e alumínio, mesmo tendo conflitado com os superiores nazistas.
Nunca conheci nem Hubert nem Ewald. É um número pequeno de filiados ao partido numa família tão grande. Uma certa sorte diante de tantos alemães, que, com a divulgação dessas fichas, tiveram de reconstruir a memória de parentes próximos. Mas talvez seja importante lembrar que as ditaduras e o terror também podem ser construídos por eles, pais, mães, tios ou primos.
