Enquanto a população espera atendimento, uma dívida iniciada em 2001 cresceu durante 25 anos e agora ameaça recursos destinados ao funcionamento do Hospital Darci João Bigaton. A pergunta é inevitável: onde estavam os responsáveis durante todo esse tempo?
Em Bonito, o tempo passa diferente.
Uma consulta demora.
Uma cirurgia espera.
Uma obra se arrasta.
Mas quando o assunto é juros, correção monetária e multa judicial, o relógio funciona como um relógio suíço.
O resultado está estampado em um processo judicial que revela uma sequência impressionante de omissões: uma dívida de água que começou com contas vencidas em 2001, chegou à Justiça em 2015, não foi contestada pelo hospital, continuou crescendo durante anos e hoje alcança R$ 1.722.583,09.
Não aconteceu da noite para o dia.
Aconteceu durante 25 anos.
E os documentos contam essa história passo a passo.
Tudo começou em 2001
Segundo a ação judicial, a Sanesul reuniu aproximadamente 110 faturas não pagas.
Não era uma conta esquecida.
Era uma sequência de débitos acumulados durante anos.
Foram cobradas contas referentes a:
- agosto a dezembro de 2001;
- janeiro e fevereiro de 2002;
- abril a dezembro de 2002;
- todos os meses entre 2003 e 2009;
- janeiro a julho de 2010;
- outubro de 2013;
- outubro e novembro de 2014.
A planilha apresentada pela empresa chegou ao valor inicial de R$ 288.554,55.
Até ali, a situação ainda poderia ser resolvida administrativamente.
Não foi.
Fevereiro de 2015: a Justiça entra em cena
Em 13 de fevereiro de 2015, a Sanesul cansou de esperar.
Ingressou com ação judicial cobrando o débito e informou que antes tentou receber amigavelmente.
Era o momento ideal para apresentar defesa.
Mas veio o primeiro silêncio da história.
Maio de 2015: ninguém contestou
O hospital foi oficialmente citado.
O prazo terminou.
Nenhuma contestação foi apresentada.
Na prática, a Justiça considerou verdadeiros os documentos apresentados pela Sanesul porque eles não foram impugnados naquela fase do processo.
Uma oportunidade perdida que faria diferença anos depois.
Agosto de 2015: condenação
Sem defesa, veio a sentença.
O hospital foi condenado ao pagamento de R$ 288.554,55, acrescidos de:
- correção monetária;
- juros de 12% ao ano;
- honorários advocatícios.
A dívida deixava de ser apenas administrativa.
Virava uma condenação judicial.
Março de 2016: decisão definitiva
Com o trânsito em julgado, acabou a discussão sobre a cobrança.
A partir dali, restava pagar.
Mas o pagamento não aconteceu.
2017: meio milhão de reais
Dois anos depois, a conta já havia praticamente dobrado.
A dívida alcançava R$ 508.275,54.
Desse valor:
- R$ 462.068,67 eram do crédito atualizado;
- R$ 46.206,87 correspondiam aos honorários da execução.
Os juros continuavam trabalhando em tempo integral.
2019: a Justiça tenta evitar o pior
Reconhecendo que o Darci João Bigaton era o único hospital do município com aquele porte, a Justiça concedeu 20 dias para que fosse apresentado um cronograma financeiro de pagamento.
Era uma chance de demonstrar boa-fé e organizar a quitação da dívida.
O plano nunca apareceu.
2021 e 2022: novas intimações, mesma resposta
Em julho de 2021, o representante do hospital voltou a ser intimado.
Em fevereiro de 2022, a Sanesul informou oficialmente que nenhuma proposta havia sido apresentada.
Mais tempo passou.
Mais juros correram.
Outubro de 2022: mais de R$ 1,3 milhão
A dívida atingia R$ 1.370.817,70.
A bola de neve já era uma avalanche financeira.
2023: tentativa frustrada
A Justiça tentou localizar dinheiro.
Não encontrou valores suficientes.
O processo acabou suspenso provisoriamente.
Julho de 2026: a cobrança volta com força
Depois da suspensão, a Sanesul retomou a execução.
A nova planilha trouxe um número que impressiona.
R$ 1.722.583,09
Desse total:
- R$ 635.030,26 correspondem ao principal atualizado;
- R$ 867.451,34 são apenas juros;
- R$ 63.503,03 referem-se à multa;
- R$ 156.598,46 são honorários advocatícios.
Os juros, sozinhos, já ultrapassam o valor original da dívida em quase três vezes.
Agosto de 2026: dinheiro da saúde entra na mira
A ordem judicial atingiu quatro contas bancárias.
Os documentos mostram bloqueios identificados de:
- R$ 246,32;
- R$ 302,86;
- R$ 6.112,04.
Total efetivamente bloqueado até aquela manifestação: R$ 6.661,22.
Outra aplicação financeira possuía R$ 151.073,74, valor que, segundo a defesa, permanecia sujeito à tentativa automática de bloqueio.
O hospital alegou que as contas recebem recursos do Fundo Nacional de Saúde, Fundo Especial de Saúde, Fundo Municipal de Saúde e verbas destinadas à folha de pagamento e ao piso da enfermagem.
Os extratos também mostram depósitos municipais de R$ 551.869,77 e R$ 488.794,43, utilizados para pagamento de salários e despesas da instituição.
A conta que ninguém quis pagar
Os documentos revelam uma sequência difícil de ignorar:
- contas vencidas desde 2001;
- ação judicial em 2015;
- nenhuma defesa apresentada;
- condenação definitiva;
- plano de pagamento determinado pela Justiça e nunca entregue;
- dívida crescendo durante anos até ultrapassar R$ 1,7 milhão.
Não foi um problema criado em uma única gestão.
Também não foi resolvido por nenhuma delas.
Enquanto administradores mudavam, diretores passavam e governos se sucediam, os juros permaneceram no cargo, trabalhando sem férias, sem greve e sem troca de comando.
Ponto de Vista – Bonito Sem Filtro News
Quando um processo leva 25 anos para chegar ao ponto de ameaçar recursos da saúde, não estamos diante apenas de uma dívida. Estamos diante de uma coleção de omissões.
Os documentos mostram datas, valores, intimações, decisões e oportunidades perdidas. O que ainda falta responder é uma pergunta simples: quem deixou a situação chegar a esse ponto?
Porque a conta tem valor.
O processo tem número.
Os juros têm cálculo.
Mas a responsabilidade ainda não tem nome.
Continua…
Na Parte 2, o Bonito Sem Filtro News vai mostrar outro capítulo dessa história: documentos do Cartório de Registro de Imóveis e contratos revelam como o Município de Bonito doou à Sanesul três áreas que somam aproximadamente 156 mil metros quadrados, um patrimônio público que também faz parte da longa relação entre a empresa de saneamento e o município.
A próxima reportagem promete revelar uma história que começou há décadas e que poucos moradores conhecem.
